Um avanço na detecção precoce do câncer de pulmão pode estar circulando nas veias dos pacientes brasileiros. Pesquisadores do Hospital de Amor (antigo Hospital de Câncer de Barretos) demonstraram que a biópsia líquida – exame que analisa o sangue em busca de DNA tumoral – pode identificar mutações genéticas cruciais para o tratamento dessa doença que mata mais de 30 mil brasileiros por ano.
O estudo, apoiado pela Fapesp e publicado na revista Molecular Oncology, revelou que é possível detectar alterações em genes como EGFR, ALK e KRAS em amostras de sangue de pacientes com câncer de pulmão não pequenas células (NSCLC), que representa 85% dos casos. A técnica mostrou-se particularmente eficaz em pacientes que já haviam recebido algum tratamento, com taxa de detecção chegando a impressionantes 87,5%.
"O adenocarcinoma é o subtipo do câncer de pulmão que mais se beneficiou do avanço da genômica", explica a pesquisadora Leticia Ferro Leal, cossupervisora do estudo. "Genes como EGFR, ALK e KRAS têm o que chamamos de 'acionabilidade'. Isso significa que, quando identificamos uma alteração dessas no paciente, existe uma droga-alvo capaz de agir diretamente sobre ela".
A pesquisa analisou 32 amostras de plasma de 30 pacientes, incluindo tanto pessoas sem tratamento prévio quanto pacientes já tratados e quatro participantes assintomáticos de um programa de rastreamento. Os cientistas usaram um painel comercial específico para mutações conhecidas no adenocarcinoma, buscando alterações em 11 genes relacionados ao desenvolvimento do tumor.
Os resultados foram surpreendentes: 65,6% das amostras apresentaram mutações, sendo as mais frequentes nos genes TP53 (40,6%), KRAS (28,1%) e EGFR (12,5%). Embora o TP53 seja o mais mutado, ainda não existe terapia específica para ele. Já as alterações em EGFR e uma mutação específica em KRAS (p.G12C) são diretamente tratáveis com medicamentos já disponíveis no Brasil.
Um dos achados mais marcantes ocorreu no grupo de rastreamento: um participante assintomático apresentou mutação no gene TP53 seis meses antes do diagnóstico de câncer. Para os pesquisadores, isso demonstra o potencial da biópsia líquida como ferramenta complementar ao rastreamento de populações de risco, especialmente fumantes e ex-fumantes.
Tempo é crucial no tratamento
Na prática clínica, o grande diferencial da biópsia líquida é a velocidade. Enquanto a análise convencional do tecido tumoral pode levar semanas entre coleta, processamento e laudo, a biópsia líquida encurta consideravelmente esse processo.
"O tempo é um fator crucial quando falamos em câncer de pulmão", explica Leal. "Com a biópsia líquida, fazemos a coleta a qualquer momento e o resultado pode sair em dois dias, antecipando o início do tratamento".
Além da agilidade, o estudo mostrou outra vantagem importante: o painel foi capaz de detectar DNA tumoral circulante mesmo em amostras congeladas, sem necessidade de tubos especiais ou transporte imediato para laboratórios especializados. Isso amplia a possibilidade de adoção do método em serviços públicos de saúde, que nem sempre dispõem de estrutura complexa para testes moleculares.
Custo ainda é barreira no SUS
Apesar dos resultados promissores, a incorporação da biópsia líquida à rotina do sistema público de saúde no Brasil ainda enfrenta barreiras econômicas significativas. O teste utilizado no estudo custa cerca de R$ 6 mil por paciente, valor que pode diminuir com o aumento da concorrência entre empresas de sequenciamento genético, mas ainda é elevado para a maior parte da população.
No setor privado, diversas terapias-alvo já estão disponíveis por meio do rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). No Sistema Único de Saúde (SUS), as opções são escassas e restritas a alguns centros de referência. "Às vezes, o paciente até tem condições de pagar pelo teste, mas não consegue custear a terapia, que pode chegar a R$ 40 mil por mês", comenta Leal.
A pesquisadora também ressalta que, embora o painel seja altamente sensível – chegando a ser dez vezes mais sensível do que alguns testes feitos em tecido do tumor – um resultado negativo não exclui completamente a presença de mutações. "Se a biópsia líquida não detecta nenhuma alteração, é preciso confirmar com o tecido. Ainda não podemos substituir completamente a biópsia convencional, são exames complementares".
Apesar das limitações, a conclusão dos pesquisadores é que a biópsia líquida tem potencial para acelerar diagnósticos, orientar de forma mais precisa o tratamento e antecipar decisões clínicas em pacientes com câncer de pulmão. O estudo reforça que a estratégia é viável, pode ser incorporada à rotina hospitalar no Brasil e tem condições de beneficiar pacientes tanto com tumores iniciais quanto avançados.
"Nosso trabalho mostra que é possível detectar várias mutações ao mesmo tempo, reduzir o tempo de resposta e usar amostras que não exigem coleta especial", resume Leal. A expectativa é que, com a queda dos custos de sequenciamento e a ampliação da oferta de testes, o acesso à medicina personalizada no câncer de pulmão se torne cada vez mais próximo da realidade brasileira.

