O Brasil deu um passo importante na conservação ambiental com a criação de uma nova Unidade de Conservação (UC) no Cerrado mineiro e a ampliação de áreas protegidas no Pantanal mato-grossense. Juntas, as medidas representam um acréscimo de 148 mil hectares sob proteção federal, anunciadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no domingo (22), durante a COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias, em Campo Grande.

A gestão dessas áreas é de responsabilidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), autarquia do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). A ministra Marina Silva destacou que "a medida foi construída com base em evidências técnicas, escuta qualificada e cooperação institucional consistente, que reforça a proteção de áreas essenciais para o pulso de inundação do Pantanal, fenômeno que sustenta sua biodiversidade, regula os ciclos ecológicos e garante a resiliência desse sistema único frente à mudança do clima".

No Pantanal, duas unidades tiveram suas áreas expandidas. A Estação Ecológica do Taiamã, criada em 1981 e localizada no município de Cáceres, a 220 quilômetros de Cuiabá, teve sua área ampliada de 11,5 mil para 68,5 mil hectares. A unidade é uma ilha fluvial delimitada pelo Rio Paraguai, composta principalmente por campo inundável, com diversos ambientes aquáticos como lagoas permanentes, temporárias e corixos.

Publicidade
Publicidade

Segundo o ICMBio, a UC abriga uma rica biodiversidade, incluindo peixes, aves e espécies vegetais. Em 2021, pesquisadores descobriram uma comunidade de onças-pintadas com hábitos alimentares incomuns, pescando peixes e jacarés. A ampliação era uma demanda antiga de pesquisadores da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), que participaram de consulta pública no ano passado.

O professor da Unemat, Claumir Cesar Muniz, explicou que "pesquisas científicas demonstram que a área atual não é suficiente para proteger adequadamente a população de onças-pintadas e as 131 espécies de peixes identificadas". Já o professor Ernandes Sobreira destacou que "maior área conservada significa mais sequestro de carbono, regulação climática e purificação da água, beneficiando diretamente a qualidade de vida humana".

O Parque Nacional do Pantanal Matogrossense (PNPM), criado em 1981 e localizado em Poconé, a cerca de 100 quilômetros de Cuiabá, teve sua área ampliada de 135,9 mil para 183,1 mil hectares. O parque, considerado de alta inundação (com períodos de até oito meses), tem limites que incluem o Rio Paraguai, Rio São Lourenço e outros cursos d'água, além de conexão com a Área Natural de Manejo Integrado San Matias, na Bolívia.

Entre as espécies ameaçadas protegidas no PNPM estão o gato-maracajá, tamanduá-bandeira, onça-pintada, jacu-de-barriga-castanha, tatu-canastra, ariranha, caboclinho-do-sertão, estilete e cervo-do-pantanal.

No Cerrado mineiro, a novidade é a criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Córregos dos Vales do Norte de Minas, com 40,8 mil hectares. A unidade abrange áreas dos municípios de Riacho dos Machados, Rio Pardo de Minas e Serranópolis de Minas, a mais de 600 quilômetros de Belo Horizonte.

A nova UC se conecta com outras áreas de conservação no Cerrado, como o Parque Estadual Serra Nova, e fica próxima do Parque Estadual Grão Mogol. Segundo o governo federal, a criação foca na proteção das comunidades tradicionais geraizeiras, que vivem na região desde pelo menos o século 19, nas áreas de chapadas e vazantes drenadas pelos córregos Tamanduá, Poções e Vacaria.

Mauro Pires, presidente do ICMBio, afirmou que "a criação da reserva reconhece a importância histórica das comunidades geraizeiras, que há gerações cuidam da natureza. A nova reserva protege seus territórios e fortalece um modo de vida que sabe viver em equilíbrio numa região de encontro entre o Cerrado e a Caatinga". Marina Silva completou: "Igualmente importante é a criação da nova UC no Cerrado, que alia justiça social e conservação, e foi construída com a participação direta das comunidades geraizeiras".

As medidas reforçam o compromisso do Brasil com a conservação ambiental e o combate às mudanças climáticas, temas centrais da COP15. Como destacou Pires, "cada nova área protegida significa mais cuidado com nossas florestas, nossos rios e nossa biodiversidade. Significa também mais força no enfrentamento do aquecimento global, como a própria ciência já demonstrou".