Em uma decisão histórica para a conservação da biodiversidade sul-americana, a 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15), realizada em Campo Grande, aprovou o Plano de Ação para Grandes Bagres Migratórios Amazônicos e incluiu a ariranha na Convenção de Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS). As medidas representam um avanço significativo na cooperação internacional para proteger espécies emblemáticas e seus habitats.

O plano para os grandes bagres migratórios, liderado pelo Brasil com participação da Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela por meio da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), estabelece medidas concretas para preservar espécies como a dourada e a piramutaba. A estratégia visa garantir a conectividade dos rios amazônicos, essencial para o ciclo de vida desses peixes que percorrem centenas de quilômetros em suas migrações.

Segundo Mariana Frias, analista de conservação da WWF-Brasil, a medida traz proteção para toda a biodiversidade aquática e a segurança alimentar das comunidades humanas. "Os grandes bagres, assim como os golfinhos de rio, são espécies sentinelas que dependem dos rios de livre fluxo para viajar centenas de quilômetros e cumprir seu ciclo de vida", explica a especialista.

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O plano prevê uma série de ações integradas entre os países amazônicos, incluindo pesquisas científicas, monitoramento das rotas migratórias, promoção de cadeias produtivas sustentáveis na pesca e participação ativa de comunidades locais e indígenas. A implementação dessas medidas busca enfrentar as principais ameaças aos ecossistemas aquáticos da região.

Mariana Frias destaca que "os rios e sua biodiversidade são ameaçados por duas razões: a falta de conhecimento de dados, chamado gap informacional, e as atividades antropogênicas [promovida por seres humanos] de alto impacto como as barragens hidroelétricas". A decisão da COP15 indica a necessidade de priorizar a conservação dos ambientes aquáticos de água doce nos países amazônicos.

Paralelamente ao plano para os bagres, a COP15 alcançou consenso para incluir diversas espécies migratórias nos anexos I e II da CMS, que trazem as listas de espécies ameaçadas de extinção e que precisam de acordos internacionais, respectivamente. Entre as espécies beneficiadas está a ariranha, maior lontra do mundo e mamífero semiaquático que habita regiões alagadas da América do Sul.

No Brasil, as ariranhas vivem principalmente no Pantanal e na Amazônia, mas a espécie sofreu drasticamente com a caça predatória para abastecer o mercado de peles. Em alguns países, como a Argentina, a ariranha foi praticamente extinta. Com a decisão na COP15, a espécie integrará a lista de espécies ameaçadas de extinção da CMS, ampliando sua proteção internacional.

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, celebrou a conquista nas redes sociais: "Fico muito feliz com essa conquista. O alerta amplia a proteção internacional e reforça que precisamos agir, juntos, e agora, para garantir a sobrevivência da ariranha, tão importante para o equilíbrio dos nossos rios".

A COP15, com programação até este domingo (29), chega aos seus últimos dias de negociações com avanços significativos na proteção de espécies migratórias. Além das decisões sobre bagres amazônicos e ariranhas, a conferência também discutiu o atlas de rotas migratórias de aves vulneráveis e o reconhecimento dos saberes ancestrais dos povos tradicionais, reforçando a abordagem integrada necessária para a conservação da biodiversidade.