A menos de oito meses da realização da 31ª Conferência sobre Mudança do Clima (COP31), na cidade de Antália, Turquia, entre 9 e 20 de novembro, o embaixador André Corrêa do Lago enfrenta o desafio de concluir o trabalho à frente da presidência brasileira no espaço multilateral das Nações Unidas para ação climática. Em entrevista exclusiva à Agência Brasil, ele detalhou as prioridades, que incluem a elaboração de mapas do caminho para o fim do desmatamento global e a transição para longe dos combustíveis fósseis, visando uma queda expressiva nas emissões de gases do efeito estufa.

Desde a COP30, realizada em Belém em novembro de 2025, o Brasil tem trabalhado para consolidar o que Corrêa do Lago chama de "fase de implementação" das COPs. "Há uma conscientização de que as COPs entram numa nova fase, que é a que a gente está chamando de fase de implementação", explicou. "Ou seja, você vai continuar negociando, mas nós temos que assegurar que as COPs sejam instrumentos mais efetivos de implementação, tendo em vista que a gente acredita que há pouco tempo para a implementação."

Um dos legados da COP30 foi a aproximação entre implementação e negociações por meio da Agenda de Ação, mas frustrações persistem, especialmente em relação aos combustíveis fósseis. Corrêa do Lago destacou que a liderança na proposta do Mapa do Caminho para a transição energética é do Brasil, não da Colômbia. "Quem lançou a ideia do Mapa do Caminho foi o presidente Lula", afirmou. "Só que o presidente Lula lançou numa dimensão política na Cúpula [do Clima]. E a Colômbia já vinha participando de certos esforços, portanto, abraçou a proposta do presidente Lula."

Publicidade
Publicidade

O embaixador explicou que, apesar de a Colômbia ter reunido cerca de 85 países em torno da iniciativa, o consenso necessário na ONU ainda não foi alcançado. "Não adianta você ter 85 ou 192, tem que haver consenso", disse. "Tendo em vista que não há, a presidência brasileira [da COP] propôs fazer o roadmap (mapa do caminho) esse ano." O plano é apresentar o roadmap em partes ao longo de 2026, com consultas a vários países, inclusive na Conferência de Santa Marta, na Colômbia.

Corrêa do Lago atribui as dificuldades em avançar na agenda climática ao impacto econômico da discussão sobre energia. "Para você ter ideia, nas Nações Unidas, o tema de energia só entrou na parte de energia atômica por causa da dimensão de não proliferação", observou. "O mundo acabou nunca conseguindo criar uma estrutura dedicada à discussão de energia, porque o impacto da discussão energética tem tantas consequências geopolíticas e econômicas." Ele ressaltou que a Convenção do Clima se tornou um espaço universal para debater energia, originalmente não previsto, e que o roadmap brasileiro visa esclarecer como o tema pode ser tratado dentro desse marco.

Sobre o papel dos Estados Unidos, Corrêa do Lago analisou que o governo americano atual mantém uma posição de status quo, não de transição. "Se os Estados Unidos hoje são a maior potência de petróleo e gás do mundo, eles têm uma visão de que isto é um momento de poder e que uma transição poderia reduzir a relevância e a força do país", disse. Em contraste, ele destacou que a China escolheu o caminho da transição energética, criando uma das maiores diferenças econômicas entre as duas potências.

Até novembro, quando encerra o período da presidência brasileira da COP, as prioridades incluem finalizar os dois mapas do caminho (sobre desmatamento e combustíveis fósseis), complementar a estrutura de financiamento climático para US$ 1,3 trilhão ao ano, desenvolver o Acelerador (iniciativa para implementação do Acordo de Paris), fortalecer a Agenda de Ação e avançar no tema da adaptação. Corrêa do Lago mencionou que a presidência brasileira lançou uma chamada global, aberta até 31 de março, para receber contribuições sobre os mapas do caminho de países, observadores e partes interessadas.

Em relação ao financiamento, o embaixador admitiu os desafios em quantificar os fluxos atuais. "Quem está dando dinheiro acentua o fato de que já tem valores muito importantes. Quem está recebendo dinheiro tem a tendência a dizer o contrário", comentou. Ele destacou a colaboração com o IHLEG (Grupo Independente de Especialistas de Alto Nível em Mudanças Climáticas), liderado pelo economista Nicholas Stern, e com o Conselho de Economistas criado para a COP30, para esclarecer números e construir confiança essencial para o consenso nas negociações.

Corrêa do Lago enfatizou que o trabalho atual visa assegurar que os legados inovadores da COP30, especialmente a transição da negociação para a implementação, sejam plenamente absorvidos na preparação da COP31. Com uma agenda intensa de participação em fóruns internacionais, o Brasil busca consolidar sua liderança na ação climática global, em coordenação com a presidência turca e australiana da próxima conferência.