A saúde pública brasileira dá um passo histórico neste domingo (18) com o início da aplicação da Butantan-DV, a primeira vacina de dose única contra a dengue do mundo. Desenvolvida pelo Instituto Butantan, órgão vinculado ao Governo do Estado de São Paulo, o imunizante começa a ser administrado em Botucatu, cidade do interior paulista escolhida pelo Ministério da Saúde para um estudo de impacto da imunização.
A vacina é tetravalente, ou seja, protege contra os quatro sorotipos conhecidos do vírus da dengue (DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4). O que torna a Butantan-DV especialmente relevante é sua característica de dose única, diferentemente de outras vacinas disponíveis que exigem múltiplas aplicações, o que facilita a logística de vacinação em larga escala.
Segurança e eficácia comprovadas
Os resultados que sustentaram a aprovação da vacina pela Anvisa vêm de cinco anos de acompanhamento de voluntários do ensaio clínico de fase 3. O estudo, conduzido entre 2016 e 2024, avaliou a Butantan-DV em mais de 16 mil voluntários residentes de 14 estados brasileiros, representando uma amostra significativa da população.
No público de 12 a 59 anos, o imunizante mostrou 74,7% de eficácia geral contra a dengue. Os números são ainda mais impressionantes quando se analisa a proteção contra formas graves da doença: 91,6% de eficácia contra dengue grave e com sinais de alarme, e 100% de eficácia contra hospitalizações por dengue.
"A vacina se mostrou segura e eficaz tanto em pessoas com infecção prévia como naquelas que nunca tiveram contato com o patógeno", explica o material de divulgação do Instituto Butantan. A maioria das reações adversas foi classificada como leve a moderada, sendo as principais dor e vermelhidão no local da injeção, dor de cabeça e fadiga. Eventos adversos sérios relacionados à vacina foram raros e todas as pessoas se recuperaram completamente.
Inovação no armazenamento
Uma das características mais inovadoras da vacina do Butantan é sua apresentação em pó, resultado de um processo chamado liofilização. Nesta técnica, a vacina é transformada em pó após o congelamento e remoção da água, o que torna o produto mais estável durante o transporte e armazenamento.
Esta é uma vantagem crucial para um país de dimensões continentais como o Brasil. Enquanto algumas vacinas exigem temperaturas rigorosas de congelamento, a versão liofilizada da Butantan-DV necessita apenas de refrigeração padrão (entre 2°C e 8°C), a mesma utilizada para a maior parte das vacinas do Programa Nacional de Imunizações (PNI).
A maior estabilidade térmica permite a formação de estoques estratégicos por mais tempo, ajudando estados e municípios a planejar campanhas de vacinação e manter abastecimento regular. Considerando que a vacina parte de São Paulo para abastecer todo o país, essa característica reduz perdas e ajuda a manter a segurança do imunizante mesmo em trajetos longos.
Produção em escala nacional
O Instituto Butantan planeja produzir até 30 milhões de doses anualmente da vacina contra a dengue. Esta capacidade produtiva coloca o Brasil em posição privilegiada no combate à doença, que registrou mais de 5,9 milhões de casos prováveis em 2023, segundo dados do Ministério da Saúde.
Os resultados dos estudos com a Butantan-DV já foram publicados em revistas científicas de prestígio internacional. Dados do acompanhamento de dois anos foram publicados no The New England Journal of Medicine, enquanto os resultados de 3,7 anos de acompanhamento apareceram na The Lancet Infectious Diseases.
O início da aplicação em Botucatu marca o começo de uma nova fase no combate à dengue no Brasil. Como uma das três cidades escolhidas pelo Ministério da Saúde para o estudo de impacto, a cidade do interior paulista será observada atentamente pelos pesquisadores, que acompanharão de perto os efeitos da vacinação em larga escala.
Para Eleuses Paiva, diretor do Instituto Butantan, "a vacina do Butantan contra a dengue é grande contribuição de São Paulo para a saúde pública". A afirmação reflete não apenas o avanço científico representado pelo imunizante, mas também sua potencial contribuição para reduzir a carga da doença no sistema de saúde brasileiro.

