O verão brasileiro, com suas temperaturas que frequentemente ultrapassam os 30°C, traz um alerta específico para uma parcela significativa da população: as pessoas em tratamento com medicamentos psiquiátricos. Segundo pesquisa do Instituto Cactus realizada em 2023, 1 a cada 6 brasileiros faz uso de remédios para problemas emocionais, e esses fármacos têm uma relação direta e perigosa com a regulação hídrica do organismo, especialmente durante os períodos de calor intenso.
Os psicofármacos, classe que inclui estabilizadores do humor, antipsicóticos e antidepressivos tricíclicos, contêm ativos químicos que interferem em mecanismos corporais fundamentais. Eles afetam a sensação de sede, o equilíbrio hidroeletrolítico (o balanço entre água e sais minerais no corpo), a função renal e até mesmo a regulação da temperatura corporal. Em condições normais, o corpo dá sinais claros quando precisa de líquidos, mas esses medicamentos podem silenciar ou distorcer esses alertas.
Quando as altas temperaturas entram em cena, esse quadro se agrava consideravelmente. O calor acelera a perda de água através do suor e da respiração, exigindo uma reposição constante que pode não ser percebida por quem tem a sede comprometida pelos medicamentos. O resultado é um risco elevado de desidratação, que pode se manifestar através de sintomas variados e, muitas vezes, confundidos com outras condições.
Entre os sinais de alerta estão desde sintomas mais leves, como fraqueza, dor de cabeça, tontura, boca seca, urina escura e irritabilidade, até manifestações mais graves que incluem confusão mental, lentidão cognitiva, agitação, piora da ansiedade, sonolência e indisposição. Em casos extremos, a desidratação pode evoluir para quadros de delírio, hipotensão (pressão baixa) e taquicardia (aceleração dos batimentos cardíacos).
O Dr. Michel Haddad, chefe do setor de psiquiatria do Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE), chama atenção para um aspecto crucial desse problema: “Esse quadro é relativamente comum e frequentemente subdiagnosticado, durante períodos de calor intenso, especialmente em: idosos, pacientes com transtornos mentais graves e pessoas em uso de múltiplos medicamentos”. Segundo o especialista, muitos sintomas são erroneamente atribuídos à condição psiquiátrica de base ou aos efeitos colaterais esperados do tratamento, o que retarda o diagnóstico correto e a intervenção necessária.
Além de aumentar o risco de desidratação, as altas temperaturas também podem intensificar os efeitos colaterais já conhecidos dos medicamentos psiquiátricos, criando um ciclo que prejudica ainda mais o bem-estar do paciente. A boa notícia é que, com medidas preventivas simples, é possível driblar esse problema e garantir a segurança durante os períodos mais quentes do ano.
A principal orientação dos especialistas é manter a ingestão de água de forma contínua e fracionada ao longo do dia, mesmo na ausência total de sede. Criar o hábito de beber pequenas quantidades de líquido regularmente, sem esperar pela sensação de sede, é fundamental. Outras medidas importantes incluem evitar a exposição prolongada ao sol, especialmente nos horários de pico de calor (entre 10h e 16h), reduzir a prática de atividades físicas intensas durante esses períodos e buscar ambientes frescos e arejados sempre que possível.
Nos casos em que a desidratação já se instalou, a reversão do quadro geralmente pode ser feita através da ingestão imediata e fracionada de líquidos. Em situações mais graves, quando os sintomas persistem ou se agravam mesmo com a hidratação oral, pode ser necessária a hidratação intravenosa em ambiente hospitalar. Por isso, a avaliação médica é obrigatória sempre que houver suspeita de desidratação significativa.
O cuidado com a hidratação deve ser incorporado como parte integrante do tratamento psiquiátrico, especialmente durante as estações mais quentes e nas ondas de calor que têm se tornado cada vez mais frequentes no Brasil. Pacientes, familiares e profissionais de saúde precisam estar atentos a essa interação entre medicamento, temperatura e hidratação, garantindo que o tratamento traze benefícios sem colocar em risco a saúde física do paciente.

