Pela primeira vez na história, o Brasil está realizando um censo nacional dedicado exclusivamente à pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado). A coleta de dados, que começou em dezembro de 2024 e segue até 26 de fevereiro de 2025, é organizada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e promete criar um retrato detalhado de quem são os pós-graduandos, docentes e pesquisadores que movimentam essa importante etapa do ensino superior no país.
O preenchimento é individual e obrigatório para todos os envolvidos: pós-graduandos matriculados, professores permanentes e colaboradores, pesquisadores em estágio pós-doutoral que não atuam como docentes e coordenadores de programas de pós-graduação (PPGs) em exercício. A coleta é feita por meio da Plataforma Sucupira, com questionários adaptados a cada perfil e compostos principalmente por perguntas de múltipla escolha. Os resultados estão previstos para serem divulgados em 16 de novembro de 2026.
Em entrevista exclusiva à Agência Brasil, a presidente da Capes e professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Denise Pires de Carvalho, explicou a importância dessa iniciativa inédita, que passará a ser realizada anualmente. "Toda forma de censo é muito relevante para a definição de políticas públicas", afirmou. "A pós-graduação leva luz, conhecimento e desenvolvimento para os diferentes territórios do país. Mas quem são os pós-graduandos? Quem são os docentes? Infelizmente, não temos esses dados e os detalhes".
Segundo Denise, o censo permitirá mapear questões fundamentais como a distribuição por gênero, raça, região e condições socioeconômicas dos participantes da pós-graduação brasileira. "Quantas mulheres, homens, quantos pardos, indígenas, brancos, nas diferentes regiões do país, quantas pessoas em vulnerabilidade socioeconômica?", questionou, destacando que essas informações são essenciais para políticas de equidade.
Um dos aspectos inovadores do questionário é a inclusão de perguntas sobre parentalidade. Para a presidente da Capes, esse é "um exemplo excelente de política pública que leva à igualdade". Ela explicou que a maternidade e a paternidade impactam diretamente na produção intelectual e na progressão nos cursos, e que o censo ajudará a criar mecanismos de ajuste. "Para um docente ser credenciado para orientar na pós-graduação, precisa produzir conhecimento em sua área de atuação. A parentalidade já está incluída nas fichas de avaliação [do censo]. Com isso, a gente pretende que os programas, em vez de avaliarem esse professor em determinado intervalo de tempo, tenham um tempo maior a ser analisado porque está passando por um período de cuidado de outra pessoa".
Denise também destacou como o censo pode ajudar a entender e combater a sub-representação feminina no corpo docente da pós-graduação. "Em dados gerais, sabemos que as mulheres são maioria entre mestres e doutores desde 1997. E elas são a maioria de doutores há mais de 20 anos, desde 2005. Mas quando olhamos o corpo docente da pós-graduação, esse é majoritariamente masculino. O que é alarmante". Ela atribui parte desse fenômeno à maternidade e à falta de políticas de apoio.
Outro tema crucial abordado no censo é a inclusão de estudantes pretos, pardos, indígenas, quilombolas e pessoas com deficiência, prevista na revisão da Lei de Cotas (nº 14.723/2023). Denise explicou que a implementação das cotas na pós-graduação é um processo que respeita a autonomia das universidades, mas que o censo será fundamental para monitorar sua efetividade. "No processo de avaliação, aqueles programas que tiverem políticas afirmativas terão uma avaliação melhor. Então, é muito importante que a Capes saiba se esse programa com uma política de ação afirmativa, efetivamente, está incluindo os estudantes. Nós saberemos sobre isso por meio do censo".
Sobre as diferenças regionais, a presidente da Capes foi enfática: "Sem dúvida nenhuma" o censo ajudará a identificar carências. "Uma pergunta é: o percentual de bolsas de pós-graduação deve ser igual entre as diferentes regiões? O percentual deve ser igual entre as diferentes áreas do conhecimento? Sair desse eixo sul, sudeste sobretudo, né?".
Questionada sobre a evasão na pós-graduação, especialmente relacionada a questões de saúde mental, Denise reconheceu que o ambiente é estressante, mas destacou que os índices de abandono são baixos comparados à graduação. "Na pós-graduação, há uma história de sucesso, porque há menos de 10% de evasão no doutorado ou no mestrado. Na verdade, dependendo do dado e como se analisa, é em torno de 4% a 5%". Ela ressaltou, porém, a importância de melhorar o ambiente acadêmico sem comprometer a qualidade.
As bolsas de estudo foram apontadas como elemento crucial para a permanência. "Na verdade, a bolsa de estudo sustenta o indivíduo na pós-graduação. Porque ele não teria como continuar na pós-graduação se tivesse que trabalhar", afirmou Denise, acrescentando que "estamos longe de ter 100% de bolsistas na pós-graduação".
Sobre a formação de doutores, a presidente da Capes defendeu a necessidade de equilibrar a preparação para o ambiente acadêmico e para o setor produtivo. "Um professor vocacionado para docência e para produção de conhecimento no ambiente acadêmico continuará sendo necessário, porque o corpo docente da pós-graduação envelheceu. Só que não pode ser mais exclusivamente, porque nenhum país do mundo se desenvolveu também sem a interação universidade e empresa". Ela citou iniciativas como o estágio obrigatório em ambientes empresariais e o Programa DAI (Doutorado Acadêmico para Inovação) do CNPq como exemplos dessa nova direção.
Com um universo de 504 mil participantes, o censo já conta com quase 70% de engajamento, segundo Denise. "Mais de 150 Programas de Pós-Graduação já tem 100% dos formulários preenchidos. Muitos outros cursos têm 98%". A expectativa é que os dados coletados orientem não apenas as políticas da Capes, mas todo o planejamento nacional para a pós-graduação nas próximas décadas, contribuindo para reduzir desigualdades e fortalecer o sistema de ciência, tecnologia e inovação brasileiro.

