Nas escolas de ensino integral da rede estadual de São Paulo, um movimento está transformando a forma como jovens mulheres enxergam seu futuro financeiro. Além das disciplinas tradicionais, professores e estudantes são incentivados a criar novas turmas a cada semestre através das chamadas disciplinas eletivas, que devem apoiar diretamente o projeto de vida dos alunos. Na Escola Estadual Diplomata Sérgio Vieira de Mello, em São Bernardo do Campo, a professora Daniela Aparecida Gomes dos Santos deu vida a uma iniciativa que vai além dos números: a disciplina "Protagonismo feminino na educação financeira e empreendedorismo".
O objetivo da matéria, que acontece às terças-feiras entre 14h05 e 15h45, é apresentar ferramentas para que as alunas tenham consciência e possam se proteger dos riscos da violência financeira e patrimonial. Esta é uma das manifestações da violência contra a mulher amparadas pela Lei Maria da Penha, e que muitas vezes passa despercebida nas discussões sobre gênero.
A inspiração para criar a disciplina veio da própria história da professora. Mesmo com formação em administração e matemática, Daniela enfrentou prejuízos financeiros significativos após um relacionamento de 13 anos. Durante o período em que esteve com o parceiro, o casal comprou um apartamento registrado apenas no nome dele para economizar nos juros do financiamento. Após a separação, ela perdeu os bens e enfrentou uma disputa judicial que poderia ter sido evitada.
"Eu quis trazer essa vivência como um alerta para as minhas alunas, para que elas não tenham que passar por essas coisas pela falta de conhecimento. Se naquela época eu tivesse essa consciência, eu poderia ter feito um contrato para me resguardar", explica a professora, que contou com o apoio da coordenadora da escola, Ieda Maria, para implementar a iniciativa.
Daniela faz uma analogia poderosa para explicar a importância do preparo: "A gente faz o seguro do carro, mas não quer ser assaltado. A gente faz um plano de saúde, e não quer parar no hospital. As mulheres precisam criar meios para se resguardar e é por isso que essa aula foi criada, para que elas estejam respaldadas no caso de relacionamentos que se encerram".
Para a estudante Agata Alves, de 14 anos, aluna da 1ª série do Ensino Médio, o conteúdo é inédito em sua trajetória. "Eu acho que essa aula é importante. A professora ensina coisas que ninguém nunca chegou em mim e me ensinou, para eu pensar quando eu crescer", afirma a jovem, demonstrando como o conhecimento chega em um momento crucial de formação.
A disciplina criada por Daniela dialoga diretamente com as aulas regulares de educação financeira do Currículo Paulista, que se tornou disciplina fixa em 2024 na rede estadual. A professora observa que a base curricular oficial despertou o interesse dos jovens por temas financeiros. "As aulas de educação financeira apresentam novas discussões para nossos alunos. Quando a gente olha a realidade dos nossos alunos, dependendo de onde está localizada a nossa escola, falar de dinheiro é muito complicado porque a ausência de dinheiro é muito presente", pondera.
Ela continua: "Quando a gente começa a plantar essa sementinha agora, isso se torna algo presente na vida deles. Isso traz uma autonomia econômica para eles decidirem sobre sua formação, sobre um emprego e sobre a realidade da vida deles". Daniela elogia a diretriz da Secretaria da Educação ao incluir o tema no currículo: "É muito importante a nossa Secretaria pensar no conhecimento do aluno para entender como ele vai projetar o futuro dele. A Educação está pensando o aluno como uma estrutura para o futuro".
A educação financeira tornou-se disciplina do currículo oficial das escolas estaduais paulistas em 2024, atendendo a mais de 1 milhão de estudantes da 1ª e 2ª série do Ensino Médio e dos 7º e 8º anos do Ensino Fundamental. A medida conta com material didático produzido pela Subsecretaria Pedagógica (Suped) e representa um avanço na preparação dos jovens para desafios econômicos reais.
As disciplinas eletivas, como a criada por Daniela, funcionam como componentes curriculares flexíveis e optativos que permitem aos estudantes escolher temas de interesse para aprofundar conhecimentos e desenvolver habilidades práticas. O modelo promove a conexão entre diferentes áreas do saber e busca alinhar o aprendizado aos sonhos dos alunos, criando pontes entre a sala de aula e a vida real.
Enquanto os números mostram um aumento de 31,2% nas prisões de agressores de mulheres em São Paulo - chegando a 18,5 mil em um ano - iniciativas como a da professora Daniela trabalham na prevenção, educando uma nova geração para reconhecer e evitar formas sutis de violência, incluindo a financeira e patrimonial. "Essa oportunidade de ter aulas de educação financeira é importante para o futuro deles, não é só aprender para passar de ano", conclui a professora, destacando o caráter transformador do conhecimento que vai além das notas escolares.

