A expansão urbana desordenada e as altas temperaturas registradas nos últimos anos têm contribuído para um fenômeno preocupante em diversas cidades brasileiras: o aumento no aparecimento de escorpiões em áreas residenciais. Esses aracnídeos, que sempre estiveram presentes na natureza, estão se adaptando cada vez mais ao ambiente urbano, encontrando nas cidades condições ideais para sua sobrevivência e reprodução.

De acordo com a bióloga Denise Maria Candido, assistente técnica de pesquisa científica e tecnológica do Biotério de Artrópodes do Instituto Butantan, os escorpiões precisam de quatro elementos básicos para sobreviver: alimento, água, abrigo e acesso. "O lixo, por exemplo, atrai baratas, que servem de alimentação para os aracnídeos", explica a especialista. Para moradia e acesso, eles procuram entulhos e se infiltram em redes de esgoto, tubulações de água e de energia, ambientes escuros e úmidos que reproduzem seu habitat natural.

O Brasil abriga quatro espécies de escorpiões consideradas de interesse médico por causarem a maior quantidade de acidentes. O escorpião-preto-da-Amazônia (Tityus obscurus) ocorre na região Norte e no Mato Grosso; o escorpião-amarelo-do-Nordeste (Tityus stigmurus) tem aparecido também em São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Tocantins; o escorpião-marrom (Tityus bahiensis) é frequente nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul; e o escorpião-amarelo (Tityus serrulatus) tem ocorrência em todas as regiões do país, exceto em Tocantins.

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"É importante fazer o controle e ter os cuidados necessários porque nós não conseguimos e nem podemos eliminar esses animais da natureza e dos meios urbanos", alerta Denise. "Os escorpiões desempenham um papel importante no equilíbrio ecológico como predadores de outros seres vivos e devem ser preservados, mas medidas preventivas devem ser tomadas para evitar a proliferação no meio urbano e os acidentes".

Para evitar o aparecimento desses animais em casa, a bióloga recomenda cuidados específicos com os ambientes residenciais. Manter a limpeza, evitar acúmulo de lixo, entulho, folhas secas e materiais de construção são medidas fundamentais. Qualquer buraco no chão ou na parede pode servir de esconderijo, e até mesmo roupas sujas ou molhadas espalhadas pelo chão podem abrigar os aracnídeos.

Os escorpiões têm hábitos noturnos e raramente aparecem durante o dia. "O escorpião é um bicho que não ataca. Na verdade, ele se defende se uma pessoa colocar a mão ou pisar. O instinto dele é fugir em caso de ameaça", complementa Denise.

Entre as principais dicas para prevenir o aparecimento de escorpiões estão: manter o lixo bem acondicionado para evitar a proliferação de insetos que servem de alimento; deixar quintais e jardins limpos, sem acúmulo de entulhos; vedar bem portas com soleiras ou saquinhos de areia; usar telas nas janelas; manter rodapés íntegros e pregados na parede; vedar todos os ralos; não deixar roupas sujas ou molhadas no chão; chacoalhar sapatos antes de calçá-los; e manter buracos nas paredes devidamente fechados.

Um mito que precisa ser desfeito é o das galinhas como controladoras naturais de escorpiões. Embora essas aves possam comer os aracnídeos, Denise explica que a prática é ineficiente. "As galinhas têm o hábito diurno e os escorpiões têm hábitos noturnos. Por isso, os animais não se encontram e as aves não podem fazer esse controle". Além disso, o acúmulo de fezes de galinha pode se tornar reservatório do inseto flebotomíneo, transmissor da leishmaniose, criando outros problemas de saúde pública.

Os meses mais quentes, de setembro a fevereiro nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, são os de maior aparecimento de escorpiões. Nos estados do Norte e Nordeste, predominantemente quentes, a incidência ocorre durante todo o ano. A rápida reprodução desses animais também preocupa: podem gerar entre 20 e 25 filhotes por gestação, que acontece até duas vezes por ano durante seus quatro anos de vida em média. As espécies fêmeas de escorpião-amarelo e escorpião-amarelo-do-Nordeste têm reprodução por partenogênese, ou seja, não precisam acasalar para dar cria.

"Esses bichos levam de 10 a 12 meses para se tornar adultos e depois disso já podem ter filhotes. Isso facilita a proliferação de maneira rápida", explica Denise. "O escorpião-amarelo, especificamente, se adapta muito bem ao meio urbano e ao ser humano, então esse aumento de acidentes está ligado também à reprodução".

Caso encontre um escorpião em casa, a recomendação é não manuseá-lo diretamente. "As pessoas nunca devem manusear os escorpiões. Caso seja necessário, o bicho deve ser manuseado com um graveto longo ou pinça anatômica de 30 centímetros para empurrá-lo para dentro de um frasco. Em seguida, o escorpião deve ser levado ao Centro de Controle de Zoonoses do município", orienta a bióloga. É importante usar luvas de vaqueta ou raspa de couro, botas ou sapatos fechados resistentes, pois luvas de borracha e sapatos de pano não oferecem proteção adequada.

Em caso de picada, a primeira medida é lavar o local com água e sabão e fazer compressa de água quente para aliviar a dor. Em seguida, buscar atendimento médico imediatamente. Os acidentes podem ser leves, moderados ou graves, com sintomas que variam desde dor local até problemas cardíacos e pulmonares em casos mais sérios. O tratamento pode incluir infiltração de anestésico ou, quando necessário, soro antiaracnídico e antiescorpiônico fabricados pelo Instituto Butantan.

O Hospital Vital Brazil, localizado dentro do Parque da Ciência do Butantan em São Paulo, é especializado no atendimento a envenenamentos por animais peçonhentos. A lista completa das unidades de saúde referência para acidentes com animais peçonhentos está disponível no site do Ministério da Saúde.