Um estudo realizado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP trouxe à tona um cenário preocupante sobre como os brasileiros lidam com os alimentos dentro de suas próprias casas. A pesquisa, que avaliou práticas de higiene e manipulação em lares de todo o país, revela que pequenos descuidos no dia a dia podem estar por trás de boa parte dos casos de doenças transmitidas por alimentos no Brasil.
Os dados epidemiológicos já indicavam que a maioria dos surtos de Doenças Transmitidas por Alimentos (DTAs) ocorre dentro das residências, mas faltava informação concreta sobre como os brasileiros realmente manuseiam seus alimentos. Para preencher essa lacuna, pesquisadores aplicaram um questionário online para 5 mil pessoas em todo o território nacional, investigando desde o transporte dos alimentos até seu armazenamento e preparo.
Os resultados são alarmantes: apenas 38% dos participantes higienizam corretamente frutas e verduras; 46,3% têm o hábito de lavar carnes na pia da cozinha (prática que pode espalhar bactérias); 24% consomem carnes malcozidas; e 17% consomem ovos crus ou malcozidos. Esses números ganham ainda mais relevância quando confrontados com as estatísticas do Ministério da Saúde: entre 2014 e 2023, foram notificados 6.874 surtos de Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar (DTHA) no Brasil, resultando em 110.614 casos de doença e 121 óbitos.
O ambiente doméstico lidera as ocorrências
O estudo revela que as residências são o principal local de ocorrência dessas doenças no país, respondendo por 34% dos casos – quase o dobro do observado em restaurantes e padarias, que aparecem em seguida com 14,6%. As bactérias mais prevalentes nos surtos brasileiros são a Escherichia coli (34,8%), Staphylococcus aureus (9,7%) e Salmonella (9,6%).
“Falhas significativas persistem nas práticas domésticas de segurança dos alimentos no Brasil”, alerta a professora Daniele Maffei, do Departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos da Esalq e uma das autoras do estudo publicado na revista Food and Humanity. “Isso indica a necessidade urgente de ações educativas e estratégias de comunicação voltadas à prevenção das Doenças Transmitidas por Alimentos no ambiente domiciliar.”
Do transporte ao descongelamento: uma cadeia de riscos
A pesquisa identificou problemas em várias etapas do processo. No transporte, 81% dos participantes não utilizam bolsas ou sacolas térmicas para levar alimentos refrigerados ou congelados do mercado até suas casas. “O transporte sem bolsa térmica permite que alimentos refrigerados fiquem em temperatura favorável ao desenvolvimento microbiano”, explica Daniele Maffei.
No descongelamento, as práticas também preocupam: 39,5% descongelam alimentos à temperatura ambiente e 18,3% em recipiente com água. “Descongelar fora da refrigeração também favorece a multiplicação de microrganismos na superfície dos alimentos”, adverte a pesquisadora.
Curiosamente, o estudo registrou temperaturas de 216 refrigeradores domésticos e descobriu que 91% estavam dentro da faixa recomendada (0 a 10°C), mostrando que o problema não está necessariamente no equipamento, mas sim em como ele é utilizado.
Renda influencia práticas de higiene
Um dado importante revelado pela pesquisa é que a renda familiar mensal influenciou diretamente as práticas de higiene, manipulação e consumo de produtos de origem animal. Isso indica diferenças nos padrões sanitários entre diferentes faixas de renda no Brasil, sugerindo que ações educativas devem considerar essas disparidades socioeconômicas.
Globalmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que aproximadamente 600 milhões de pessoas – quase um em cada dez indivíduos no mundo – adoecem todos os anos após consumir alimentos contaminados. As Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar ocorrem em todas as regiões do planeta e estão frequentemente associadas a falhas de higiene na manipulação e no armazenamento dos alimentos.
Para Daniele Maffei, os resultados reforçam a importância de ações educativas para melhorar a segurança dos alimentos. “Isso é algo que buscamos sempre disseminar por meio das atividades de extensão”, conclui a pesquisadora, destacando que pequenas mudanças de hábito podem fazer grande diferença na prevenção de doenças que afetam milhares de brasileiros todos os anos.

