A 24ª edição da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace) começou nesta terça-feira (17) no Inova USP, no campus da Universidade de São Paulo no bairro do Butantã, zona oeste da capital paulista. Considerada a maior mostra pré-universitária de ciência e engenharia do país, o evento reúne 297 projetos finalistas desenvolvidos por estudantes do ensino básico e técnico de todas as regiões do Brasil.
O primeiro dia da feira foi aberto exclusivamente para imprensa, avaliadores e autoridades. A mostra será aberta ao público na quarta (18) e quinta-feira (19), com entrada gratuita das 8h30 às 16h30. A cerimônia de premiação está marcada para sexta-feira (20), das 14h às 18h.
Uma geração conectada com as tecnologias mais avançadas
A Febrace revela neste ano uma geração de estudantes que exploram tecnologias de ponta — como inteligência artificial, visão computacional, redes neurais, biossensores e realidade virtual — para investigar e propor soluções para problemas concretos da sociedade. Os trabalhos estão distribuídos por diferentes áreas do conhecimento, refletindo a diversidade de temas investigados pelos jovens pesquisadores.
Projetos que impressionam pela aplicabilidade
Entre as soluções apresentadas, destaca-se uma plataforma de inteligência artificial capaz de prever surtos de dengue com semanas de antecedência, desenvolvida por estudantes do Colégio Técnico de Campinas (Cotuca-Unicamp). O sistema analisa dados históricos da doença e informações climáticas, identificando padrões que indicam quando o número de casos pode aumentar em cada município.
Outro projeto que chama atenção é o sistema que utiliza IA para detectar e rastrear balões no céu, ajudando a prevenir incêndios e acidentes aeronáuticos. Desenvolvido por estudantes do Colégio Dante Alighieri, de São Paulo, o sistema utiliza câmeras e um modelo de visão computacional treinado com milhares de imagens, alcançando 94% de precisão nos testes.
Tecnologia a serviço da saúde e do bem-estar
Na área da saúde, os projetos são igualmente impressionantes. Estudantes do Colégio Poliedro, em São José dos Campos, desenvolveram uma luva antitremor para pessoas com doença de Parkinson. O dispositivo utiliza sensores para detectar oscilações involuntárias e aciona pequenos motores de vibração que produzem um contrabalanço mecânico, ajudando a estabilizar o movimento.
Outro destaque é o sistema de inteligência artificial capaz de prever crises epilépticas antes que elas aconteçam, criado por duas estudantes da Etec de Guarulhos. O modelo analisa sinais de eletroencefalograma e identifica padrões da atividade elétrica do cérebro que costumam aparecer cerca de 30 minutos antes das crises, com mais de 80% de acerto nos testes.
Soluções urbanas e ambientais
Problemas urbanos também recebem atenção especial dos jovens pesquisadores. Um estudante morador de Paraisópolis desenvolveu um dispositivo de névoa d'água de baixo custo para reduzir o calor em comunidades urbanas. O Sistema Termoneblina, montado com materiais reutilizados como garrafas PET e tubos de silicone, reduziu a temperatura em até 2°C em testes laboratoriais.
Estudantes de Guarulhos criaram bueiros inteligentes que monitoram o acúmulo de lixo e ajudam a prevenir enchentes. O sistema utiliza um sensor ultrassônico conectado a um microcontrolador Arduino para medir o nível de resíduos e envia as informações pela internet para um sistema on-line que permite acompanhar a situação de cada ponto da rede de drenagem.
Inovação com sustentabilidade
A preocupação com o meio ambiente aparece em vários projetos. Estudantes do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul desenvolveram uma pilha sustentável produzida a partir de rejeitos da mineração de manganês. O material descartado foi transformado em pó fino e usado como componente principal de uma pilha que gerou cerca de 1,27 volt nos testes, energia suficiente para alimentar pequenos dispositivos.
Outro projeto sustentável é o Ecolábios, um batom produzido com ingredientes naturais da Amazônia como manteiga de cacau, óleos de pequi e buriti, e pigmento natural extraído do urucum. Desenvolvido inicialmente por estudantes do Pará e agora continuado no Ceará, o cosmético apresenta textura, cor e estabilidade semelhantes às de produtos convencionais.
Premiação e reconhecimento internacional
Os projetos serão avaliados por especialistas e professores universitários durante a feira. Os melhores trabalhos receberão troféus, medalhas, bolsas e estágios, totalizando cerca de 300 prêmios. Nove projetos serão selecionados para representar o Brasil na Regeneron International Science and Engineering Fair (ISEF) 2026, maior feira internacional de ciência e engenharia para estudantes pré-universitários, que ocorrerá de 9 a 15 de maio em Phoenix, no estado do Arizona (EUA).
Democratização do acesso à tecnologia
Vários projetos buscam tornar tecnologias caras mais acessíveis à população. Estudantes de Goiânia desenvolveram um sistema capaz de identificar alterações na retina usando apenas um smartphone e um acessório impresso em 3D. As imagens são analisadas por uma rede neural treinada para reconhecer sinais de doenças como papiledema e retinopatia hipertensiva.
Outro exemplo vem de Manaus, onde estudantes criaram um detector inteligente de arritmia que custa aproximadamente R$ 800, enquanto um monitor Holter tradicional pode custar cerca de R$ 6 mil. O sistema capta o sinal do coração por sensores e analisa os dados por meio de redes neurais, indicando imediatamente se o ritmo cardíaco apresenta alterações.
A Febrace 2026 acontece até quinta-feira (19) no Inova USP, com entrada gratuita para o público. A programação completa está disponível no site oficial do evento, demonstrando como a criatividade e o conhecimento técnico dos jovens brasileiros podem gerar soluções transformadoras para os desafios do país e do mundo.

