Entre os dias 17 e 20 de março, o campus da Universidade de São Paulo (USP) no bairro do Butantã, em São Paulo, se transforma no principal palco da ciência jovem do Brasil. É lá que acontece a 24ª edição da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), considerada a maior mostra pré-universitária de projetos científicos e tecnológicos do país. Neste ano, 297 trabalhos finalistas, desenvolvidos por estudantes do ensino básico e técnico de todas as regiões do Brasil, evidenciam uma mudança significativa: o uso cada vez mais sofisticado de tecnologias emergentes para enfrentar problemas contemporâneos com rigor científico e olhar social.

Historicamente, a Febrace já apresentava soluções inovadoras em diversas áreas do conhecimento, como Ciências Agrárias, Biológicas, Exatas, Humanas, da Saúde, Sociais Aplicadas e Engenharia. Mas em 2026, fica claro que as ferramentas digitais e computacionais dominam o cenário. Os estudantes estão aplicando conceitos avançados como inteligência artificial, visão computacional, redes neurais convolucionais, biossensores, dispositivos vestíveis, blockchain e realidade virtual para propor soluções concretas que vão desde o diagnóstico médico até a preservação ambiental.

"A Febrace sempre refletiu as inquietações da juventude brasileira. O que vemos agora é uma geração que se apropria de ferramentas tecnológicas cada vez mais sofisticadas e começa a utilizá-las para investigar problemas reais, com responsabilidade social e rigor científico", afirma a professora Roseli de Deus Lopes, coordenadora geral da Febrace. "Eles não estão apenas aprendendo tecnologia, estão experimentando formas de aplicá-la para compreender e transformar contextos concretos".

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Entre as abordagens que mais se destacam, estão projetos que utilizam inteligência artificial, visão computacional e redes neurais para desenvolver ferramentas capazes de auxiliar no diagnóstico de doenças. Há sistemas de detecção de alterações em imagens de retina, reconhecimento de padrões morfológicos associados ao câncer, algoritmos para prever surtos epidemiológicos transmitidos pelo Aedes aegypti, e até detectores de resíduos sólidos que usam visão computacional. Outras iniciativas combinam inteligência artificial com dispositivos físicos, como luvas eletrônicas para tradução de Libras, sistemas de comunicação alternativa para pessoas com doenças neurodegenerativas e plataformas digitais de apoio terapêutico.

"Os projetos também revelam estudantes atentos a questões que vêm ganhando cada vez mais espaço no debate público, como o transtorno do espectro autista, a presença de microplásticos no ambiente, a segurança digital, temas de acessibilidade e inclusão, além de problemas sociais como o feminicídio e os impactos dos cassinos virtuais. Isso mostra o quanto estão atentos às transformações da sociedade", observa a coordenadora Roseli de Deus Lopes.

Os projetos finalistas serão avaliados por especialistas, professores universitários e profissionais de diferentes áreas durante a feira. Os autores dos melhores trabalhos, nas diversas categorias, receberão troféus, medalhas, bolsas e estágios, totalizando cerca de 300 prêmios e oportunidades no Brasil e no exterior. Nove projetos serão selecionados para representar o país na Regeneron International Science and Engineering Fair (ISEF) 2026, que ocorrerá de 9 a 15 de maio, em Phoenix, Arizona (EUA) – a maior feira internacional de ciências e engenharia para estudantes pré-universitários.

A Febrace 2026 conta com patrocínio da Embaixada e Consulados dos Estados Unidos no Brasil, da Petrobras, da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). O Governo Federal apoia a iniciativa por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), do Ministério da Educação (MEC) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Promovida pela Escola Politécnica da USP e realizada pelo Laboratório de Sistemas Integráveis Tecnológico (LSI-TEC), a Febrace vai além de uma simples mostra anual. Ela integra um amplo programa de promoção da cultura científica e da educação em STEM (Science, Technology, Engineering, and Mathematics) no Brasil, que inclui cursos on-line gratuitos, formação de professores e iniciativas de educação STEAM (que inclui Artes). O reconhecimento da feira também se reflete no acesso ao ensino superior – a competição é reconhecida no Processo de Olimpíadas Científicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), permitindo que estudantes premiados concorram a vagas na universidade sem realizar o vestibular tradicional.

Em sua 24ª edição, a Febrace já reuniu, ao longo de sua história, mais de 16.719 estudantes participantes, com cerca de 7.200 projetos finalistas apresentados na feira. Foram concedidas aproximadamente 4.500 premiações entre prêmios científicos, técnicos e institucionais. A feira também selecionou e preparou delegações brasileiras para a ISEF, resultando em 210 projetos enviados e 82 prêmios conquistados na maior competição internacional de ciência pré-universitária.

A mostra estará aberta ao público nos dias 18 e 19 de março, das 8h30 às 16h30, no Inova USP – Campus da USP (avenida Professor Lúcio Martins Rodrigues, 370, Butantã, São Paulo). A entrada é gratuita. No dia 20 de março, das 14h às 18h, acontece a cerimônia de premiação que coroa os melhores projetos desta geração de jovens cientistas brasileiros.