O HPV, ou Papilomavírus Humano, é mais do que um simples vírus - é um grupo com mais de 200 tipos diferentes que causa a infecção sexualmente transmissível mais comum do mundo. Enquanto alguns desses vírus provocam apenas verrugas genitais, outros são mais agressivos e estão diretamente ligados a diversos tipos de câncer, como os de colo do útero, ânus, pênis, boca e garganta. No Brasil, essa realidade é especialmente preocupante: o câncer de colo do útero mata milhares de mulheres todos os anos, sendo que a maioria desses casos poderia ser prevenida.
A vacinação contra o HPV é, segundo o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS), a forma mais eficaz de prevenção. O pediatra e gestor médico de Desenvolvimento Clínico do Butantan, Mário Bochembuzio, faz uma analogia poderosa: "A vacina contra o HPV funciona exatamente como usar um capacete: ninguém espera sofrer um acidente para colocá-lo; o capacete só protege quem o utiliza antes de subir na moto ou na bicicleta. Com a vacina, a lógica é exatamente a mesma".
Para garantir a máxima eficácia, o especialista esclarece que "a vacina deve ser aplicada na faixa etária dos 9 aos 14 anos, quando o sistema imunológico responde melhor e antes do início da vida sexual, que é quando o risco real de exposição ao vírus começa". No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece gratuitamente a vacina para essa faixa etária, e desde 2025 também está disponível em dose única para jovens de 15 a 19 anos em uma campanha que vai até dezembro deste ano.
Apesar de toda essa disponibilidade e comprovação científica, um dado preocupa: a taxa de vacinação no Brasil ainda não alcançou a meta de 95% de cobertura estabelecida pelas autoridades sanitárias. Embora tenha havido um aumento importante em 2024 - passando de 78,5% em 2022 para 82% de cobertura global -, o país ainda está longe do ideal. A pergunta que fica é: se a proteção é tão eficaz e gratuita, por que tantas pessoas ainda deixam de se vacinar?
A resposta, segundo especialistas, está em uma série de mitos que continuam circulando em conversas e nas redes sociais. Um dos mais persistentes e perigosos é a falsa ideia de que a vacina 'antecipa' o início da vida sexual dos adolescentes. "O foco da vacina é justamente o oposto: é uma ferramenta de prevenção para proteger contra doenças graves, como o câncer, e ela funciona se for usada antes da exposição ao risco, ou seja, antes do início da vida sexual", ressalta Bochembuzio.
Mas os mitos não param por aí. O Portal do Butantan consultou o gestor médico para desmentir as principais falsidades que circulam sobre a vacina. A primeira delas é que a vacina seria uma 'experiência genética' que muda o DNA. Isso é completamente falso. A vacina é feita a partir de partículas semelhantes ao vírus (VLP), desenvolvidas em laboratório para 'imitar' a estrutura do vírus sem conter seu material genético. Em resumo: a vacina não entra no núcleo das células, onde o DNA fica guardado.
Outro boato frequente é que a vacina causaria a Síndrome de Guillain-Barré. O Comitê Consultivo Global para Segurança de Vacinas da OMS analisou extensa literatura científica e concluiu que não há associação direta entre a vacina contra o HPV e essa síndrome. Estudos populacionais na Dinamarca, Suécia, França e Reino Unido, envolvendo milhões de pessoas vacinadas, não encontraram aumento significativo no risco.
Há ainda quem acredite que 'só pega HPV quem tem muitos parceiros', mas isso também é um engano. Qualquer pessoa que tenha ou venha a ter contato íntimo com outra pode contrair o vírus, mesmo que seja com um único parceiro. O HPV é extremamente comum e de fácil transmissão.
Outro equívoco perigoso é pensar que 'como HPV não tem cura, não adianta tomar a vacina'. Na verdade, é justamente por não existir um tratamento específico contra o vírus que a vacinação se torna tão crucial. Segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a vacinação de adolescentes contra o HPV pode prevenir cerca de 70% dos casos de câncer de colo do útero.
Para quem já foi infectado, também há benefícios. Mesmo quem teve contato com um tipo de HPV pode se proteger contra outros tipos através da vacina, especialmente contra os principais que causam câncer. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) foca no público mais jovem seguindo recomendações da OMS, mas pessoas fora da faixa etária prioritária podem se beneficiar consultando um médico.
Um mito que ganhou força internacional foi a falsa informação de que a vacina teria sido suspensa no Japão. Na realidade, o governo japonês apenas parou de recomendá-la ativamente temporariamente para investigar causas de desinformação. Após comprovar a segurança e eficácia da vacina, e observar o aumento nas taxas de câncer, o Japão voltou a recomendar ativamente a imunização em 2022.
Os números não mentem: um estudo publicado em 2020 na revista BMC Infectious Diseases por cientistas da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (braço de estudos de oncologia da OMS) mostrou que mulheres jovens vacinadas contra o HPV tiveram um risco significativamente menor de desenvolver lesões pré-cancerosas cervicais. A eficácia da vacina contra lesões de grau 2 ou superior foi de 76%, e contra lesões de grau 3 ou superior chegou a impressionantes 91%.
No Brasil, além do público prioritário de 9 a 14 anos (e agora também de 15 a 19 anos), o PNI inclui outros grupos que podem receber a vacina até os 45 anos em esquema de três doses: imunossuprimidos, vítimas de violência sexual e pessoas com outras condições específicas.
Os benefícios da vacinação vão muito além da proteção individual. Quando uma parcela significativa da população está imunizada, cria-se uma proteção coletiva que dificulta a circulação do vírus. No caso do HPV, isso significa não apenas prevenir verrugas genitais, mas principalmente reduzir drasticamente os casos de cânceres associados ao vírus.
Enquanto mitos continuam circulando, a ciência segue comprovando: a vacina contra o HPV é segura, eficaz e uma das ferramentas mais poderosas que temos para prevenir vários tipos de câncer. No Brasil, onde o SUS oferece essa proteção gratuitamente, aumentar as taxas de vacinação significa salvar milhares de vidas no futuro.

