Há muito tempo os médicos observam que pacientes com doenças inflamatórias intestinais (DII) frequentemente apresentam também problemas emocionais e de sono. A suspeita de que existe uma conexão direta entre o intestino inflamado e o cérebro ganhou agora comprovação científica robusta através de uma pesquisa pioneira da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).
O estudo, que conquistou o primeiro lugar na 6ª Semana Brasileira das Doenças Inflamatórias Intestinais (SEBRADII), maior congresso sobre o tema na América Latina, analisou pacientes com doença de Crohn e descobriu que aqueles com inflamação ativa no intestino tinham probabilidade quase três vezes maior de apresentar sono de má qualidade, cansaço ao despertar, fadiga e sintomas de ansiedade e depressão.
A conexão intestino-cérebro
Segundo a médica Carolina Bortolozzo Graciolli Facanali, uma das coordenadoras da pesquisa, a explicação está no eixo intestino-cérebro. "Quando existe inflamação no intestino, substâncias do sistema imunológico podem circular pelo corpo e influenciar o funcionamento do cérebro, afetando o humor, o sono e outros aspectos emocionais", explica a pesquisadora.
A doença de Crohn é uma inflamação crônica autoimune que afeta principalmente o final do intestino delgado e o intestino grosso. O quadro alterna entre crises de inflamação ativa e períodos de remissão, quando os sintomas estão controlados ou ausentes. "A doença pode evoluir ao longo dos anos, começando com um estágio inflamatório limitado à mucosa do intestino, podendo avançar para as formas estenosante e penetrante (fístulas), consideradas mais graves", detalha Carolina.
Resultados alarmantes
A pesquisa revelou números preocupantes: mais de dois terços dos pacientes avaliados apresentavam inflamação intestinal ativa, sendo que a grande maioria relatou problemas de sono. Entre eles, 69% disseram que o descanso não era reparador e 71% classificaram sua qualidade de sono como ruim.
Um achado interessante foi que pacientes com o fenótipo inflamatório (fase inicial da doença) dormiam pior do que aqueles com o fenótipo estenosante ou penetrante (fase crônica). Para o coloproctologista e professor da FMUSP, Carlos Sobrado, "esse fato pode estar relacionado à maior resiliência dos pacientes com doença de longa duração, que já enfrentaram fases mais críticas e aprenderam a lidar melhor com novos desafios".
Metodologia rigorosa
Para chegar a essas conclusões, a equipe multidisciplinar - composta por coloproctologistas, nutricionistas, fisioterapeutas e profissionais de educação física - utilizou uma metodologia abrangente. Os pesquisadores quantificaram os níveis de calprotectina fecal, biomarcador que indica atividade inflamatória do intestino quando está acima de 250 µg/g.
A avaliação do sono foi feita através do Índice de Pittsburgh e da Escala de Epworth, além de questionários para avaliar níveis de ansiedade e depressão. A inovação foi o uso de acelerometria - um dispositivo semelhante a um relógio usado durante a noite - para medir de forma objetiva o tempo para adormecer e os despertares noturnos.
Os pacientes responderam aos questionários, receberam o acelerômetro e frascos estéreis para coletas. Após sete dias, retornaram ao ambulatório do Hospital das Clínicas para devolver o aparelho e entregar as amostras, permitindo a análise conjunta dos padrões de sono e do nível de inflamação intestinal.
Confirmação de estudos anteriores
Os novos resultados confirmam evidências já apresentadas em artigo anterior, publicado pelo grupo em 2023 na revista Clinics, que identificou alta prevalência de depressão maior entre pessoas com doença de Crohn. Aquele estudo mostrou que o transtorno depressivo estava fortemente associado à fase ativa da enfermidade e que as mulheres apresentaram risco cinco vezes maior de desenvolver depressão em comparação com homens.
Impacto na prática clínica
Para o professor Sobrado, os resultados reforçam a necessidade de encarar a doença de Crohn de maneira integrada. "Reconhecer que a inflamação intestinal não se limita ao trato digestivo e pode desencadear impactos significativos na saúde mental e na qualidade de vida é fundamental para um tratamento mais eficaz", afirma o especialista.
A pesquisa demonstra a forte correlação entre atividade inflamatória, piora do sono e sintomas emocionais, ampliando a compreensão clínica sobre a doença. "O estudo surgiu da observação clínica diária e buscou comprovar cientificamente uma percepção já presente na prática médica: corpo e mente estão interligados", diz Carolina Facanali.
De acordo com a pesquisadora, os resultados representam um avanço para consolidar práticas de saúde mais integradas, capazes de considerar as diferentes dimensões do adoecimento. O estudo destaca a importância de incorporar a avaliação do sono, o apoio psicológico e a atenção nutricional ao cuidado de rotina dos pacientes com DII.
Doenças inflamatórias intestinais no Brasil
As duas principais doenças inflamatórias intestinais são a doença de Crohn (DC) e a retocolite ulcerativa (RCU). Ambas são condições autoimunes crônicas, marcadas por períodos de remissão e agravamento. Embora não tenham cura, as crises podem ser controladas com medicamentos, ajustes na alimentação e, em alguns casos, cirurgia.
A diferença entre elas está na localização da inflamação: a DC pode acometer qualquer trecho do trato digestivo - da boca ao ânus - e costuma causar lesões mais profundas da parede intestinal. Já a RCU se limita ao intestino grosso e ao reto, com inflamação contínua e mais superficial. As duas doenças afetam principalmente pessoas em idade economicamente ativa, entre 20 e 30 anos, e provocam sintomas como diarreia, dor abdominal, sangramento, febre e perda de peso.
Os dados apresentados no congresso são apenas uma parte da pesquisa desenvolvida por uma equipe multiprofissional que trabalha no Departamento de Gastroenterologia e Nutrologia da FMUSP. O estudo também compõe a tese de Carolina Facanali, desenvolvida em parceria com o professor Celso Carvalho, do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional (Fofito) da FMUSP.

