Imagine uma criança de 7 anos na escola, com o coração acelerado, as mãos suando e uma sensação de pânico tomando conta. Em vez de deixar a raiva e a frustração explodirem, ela fecha os olhos por um instante e se lembra do que aprendeu nas sessões de terapia: respira fundo, segura o ar e solta devagar. Minutos depois, a crise de ansiedade passa. Essa técnica de respiração controlada, já consolidada na psicologia, ganhou uma roupagem moderna através da startup brasileira Self Intelligence for Life.

Fundada em 2022 em São José dos Campos, a empresa desenvolveu uma plataforma que combina jogos digitais, sensores biométricos e técnicas terapêuticas para ensinar crianças com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) a gerenciar suas emoções. O sistema monitora o paciente em tempo real enquanto ele joga, oferecendo recompensas virtuais quando consegue se acalmar e respirar adequadamente.

"A plataforma monitora a criança em tempo real por meio de sensores", explica Gabriella Faria, engenheira biomédica e CEO da startup. "O jogo mede como a criança está se sentindo e dá benefícios quando ela consegue se acalmar e fazer a autorregulação."

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A ideia surgiu da intersecção entre pesquisa científica e necessidade clínica real, durante o mestrado em engenharia biomédica de Gabriella. Ela participava de um grupo que estudava técnicas de respiração e métodos não farmacológicos de redução de estresse, coordenado pelas pesquisadoras Karina Casali e Tatiana Cunha. Uma colaboradora do grupo, a neuropsicopedagoga Renata Casali, relatou um problema frequente em suas sessões: a falta de ferramentas para acalmar as crianças antes das atividades terapêuticas, processo que podia levar de 15 a 20 minutos.

Os pesquisadores confirmaram a necessidade através de entrevistas e pesquisas de mercado, dando origem a uma solução desenvolvida por uma equipe multidisciplinar que une clínica, engenharia, neurociência e fisiologia. O projeto recebeu apoio do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da Fapesp, em parceria com o Sebrae SP.

A tecnologia chega em um momento crítico. Dados do Ministério da Saúde revelam que os atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) por transtornos de ansiedade em crianças de 10 a 14 anos aumentaram mais de 1.300% na última década - de 1.850 registros em 2014 para mais de 24.300 em 2024. Paralelamente, o número de matrículas de estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) na educação básica cresceu 44,4% entre 2023 e 2024, alcançando 918.877 alunos, segundo o Censo Escolar.

Como funciona na prática

O sistema da Self Intelligence for Life é composto por três elementos principais: sensores biométricos (disponíveis como cinta torácica, braçadeira ou clipe de orelha), um aplicativo com jogos e uma plataforma de gestão para terapeutas. Os sensores monitoram a variabilidade da frequência cardíaca, um indicador validado para medir níveis de estresse, usando tecnologia semelhante à dos smartwatches, mas processada com métricas específicas.

A plataforma oferece atualmente oito jogos de complexidade variada. Quando a criança veste o sensor e inicia o jogo, o sistema começa a interpretar seu estado emocional em tempo real. Os jogos incentivam a respiração controlada - uma técnica não farmacológica estudada como alternativa ou complemento a tratamentos tradicionais para TDAH e ansiedade.

Em um dos jogos, a criança respira junto com uma baleia para aprender o padrão respiratório adequado. Outro jogo, considerado o mais desafiador da plataforma, apresenta um caranguejo que precisa organizar objetos na ordem correta. "É superdifícil porque tem de respirar, colocar os objetos no lugar e na ordem corretos enquanto o vento leva o lixo embora. E não adianta ficar nervoso", explica Gabriella. Cada sessão dura cerca de três minutos, tempo suficiente para obter resultados.

Embora desenvolvida inicialmente para TDAH, a plataforma atende também crianças com TEA e sintomas de ansiedade. O design considera as especificidades desse público: sons, cores e estímulos foram pensados para crianças com maior sensibilidade sensorial.

O terapeuta tem papel fundamental no processo, planejando as sessões, escolhendo os jogos adequados e apresentando o sensor de forma lúdica. "Ele fala para a criança que ela vai ouvir o próprio coração, que a baleia precisa de ajuda para se acalmar e por aí vai", conta Gabriella.

A startup criou uma trilha de aprendizado que começa com jogos mais simples para crianças com TEA (que podem se frustrar com determinados desafios) e mais estimulantes para quem tem TDAH (que podem precisar disso para manter o foco). A empresa também se preocupa com o uso consciente de telas, recomendando sessões curtas e regulares - até três sessões diárias de três minutos em casa, totalizando apenas nove minutos por dia.

Resultados além da tela

O objetivo principal do treinamento é que a técnica de respiração controlada seja internalizada e aplicada em situações cotidianas. Terapeutas que já usam a plataforma relatam que as crianças começam a usar a respiração controlada em momentos de estresse na escola, antes de provas ou em discussões com colegas.

A cada sessão, o terapeuta obtém relatórios detalhados com métricas como sinais do sensor, tempo de jogo e desempenho, que podem ser compartilhados com os pais para mostrar a evolução concreta da criança. A startup já comercializa a solução para clínicas particulares e terapeutas autônomos, com custo de R$ 9,90 por paciente no plano básico ou R$ 49,90 quando a empresa fornece os sensores.

Além do setor privado, a Self Intelligence for Life busca atuar no sistema público. Atualmente, em parceria com a Secretaria de Saúde de São José dos Campos, a startup testa a solução em ambiente controlado (sandbox) para que a prefeitura avalie o produto. "Estamos validando com o setor público, tanto em saúde quanto em educação", diz Gabriella.

A adaptação para o SUS apresenta desafios, como a infraestrutura pública com computadores de conexão restrita e bluetooths limitados. "Nem tudo se encaixa perfeitamente: vai ser preciso experimentação para adaptar o produto", reconhece a pesquisadora.

Expansão e perspectivas

Recentemente, a empresa participou da Web Summit em Portugal, onde fez contatos importantes no mercado europeu. Uma terapeuta parceira instalada no país vai apresentar a solução por lá, abrindo caminho para expansão internacional. "Temos boas expectativas de levar a ferramenta para outros países", revela Gabriella.

Novos jogos estão em desenvolvimento para expandir as habilidades disponíveis, incluindo opções voltadas para a fala (para crianças com dificuldade fonética) e o uso de inteligência artificial para personalização mais avançada. A startup também planeja expandir para outras faixas etárias. "Temos no planejamento uma versão não tão infantil, para atender outros grupos", destaca Gabriella.

Segundo dados apresentados por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) em 2021, uma em cada seis crianças e adolescentes no mundo é afetada por algum transtorno mental. No Brasil, entre 69 milhões de pessoas de 0 a 19 anos, há registro de 10,3 milhões de casos. A saúde mental infantil, como apontam especialistas, é altamente negligenciada - apenas uma parcela ínfima tem acesso a serviços adequados.

Nesse contexto desafiador, soluções como a desenvolvida pela Self Intelligence for Life podem ajudar a democratizar o acesso a técnicas terapêuticas eficazes. A expansão para o SUS e mercados internacionais representa não apenas um crescimento empresarial, mas uma oportunidade de transformar a forma como lidamos com ansiedade e emoções desde a infância, oferecendo ferramentas modernas e acessíveis para o desenvolvimento emocional das novas gerações.