A implementação de um plano claro que prepare a população para sair de casa durante chuvas fortes e indique para onde deve ir é uma necessidade urgente em Juiz de Fora, segundo avaliação de sobreviventes da tragédia da última semana e de especialistas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). A medida é apontada como fundamental para conter mortes por soterramentos, enquanto a prefeitura afirma que a Defesa Civil já atua na prevenção.
As fortes chuvas que atingiram a cidade da Zona da Mata mineira entraram para a história como um dos eventos mais extremos registrados pelo município. O balanço desta sexta-feira (27) contabiliza mais de 60 mortos, além de milhares de desabrigados ou desalojados. O acumulado de 749 milímetros de precipitação até 25 de fevereiro, registrado pela UFJF, é o maior dos últimos 30 anos, superando eventos históricos como os de 1972 e 1985, quando a ocupação da cidade era diferente.
Uma das regiões mais atingidas foi o Jardim Parque Burnier, na zona leste de Juiz de Fora, a três quilômetros do centro. Cercado de encostas e com histórico de deslizamento, o local concentra mais de 20 mortos e teve mais de dez pessoas resgatadas debaixo de escombros. Os que conseguiram escapar com vida, como o pedreiro Danilo Frates, cobram um sistema de emergência mais efetivo.
"Não teve aviso, não teve sirene para alertar, não teve", disse Danilo sobre a segunda-feira (23), quando afirmou não ter recebido nenhum alerta e avaliou que a prefeitura demorou a chegar, apesar de nunca ter visto um desastre do tipo. Ele contou que só percebeu os deslizamentos quando saiu de casa e observou uma poeira no ar, mesmo sob chuva. Para Frates, se a Defesa Civil tivesse emitido alertas, incluindo o uso de sirenes, ou orientações no local, mais vidas poderiam ter sido salvas.
Na avaliação do professor Miguel Felippe, do Departamento de Geociências do Instituto de Ciências Humanas da UFJF, apesar do município ter um mapa de risco e um sistema de alerta considerado estruturado, ficou clara a necessidade de aprimorar a comunicação e a organização. "É preciso ir a campo, conversar com as pessoas, instruir, ter um plano de contingência muito claro", recomendou, destacando a importância de rotas de fuga e endereços de abrigos públicos bem divulgados.
Da mesma forma, o professor Jordan de Souza, do Departamento de Transportes e Geotecnia da Faculdade de Engenharia da UFJF, avalia que o sistema de alerta da Defesa Civil é tão importante quanto as obras de engenharia. Para o especialista, o volume de chuva em Juiz de Fora superou a capacidade das estruturas existentes, enquanto as obras contratadas pela prefeitura ainda estão em andamento ou fase de contratação. Sem uma solução segura, ele defende a realocação habitacional de moradores em áreas de alto risco já conhecidas.
Em entrevista à Agência Brasil, a secretária de Desenvolvimento Urbano e Participação Popular do município, Cidinha Louzada, explicou que há um sistema de alerta por mensagens para telefones celulares dos moradores. Já as sirenes sonoras, pelas características dos terrenos, não seriam adequadas. Ela avalia que o problema central é que as pessoas não deixam suas casas. "A pessoa pensa assim: 'eu já moro aqui há 40 anos, nunca aconteceu nada'", disse Cidinha, ponderando que há casos de indivíduos que têm medo de não ter para onde ir ou de perder a casa e preferem arriscar.
A secretária destacou que Juiz de Fora é a nona cidade no país em risco de desastre geológico, com classificação de moradias em quatro níveis de risco. No mais grave, o monitoramento é constante, feito por núcleos da Defesa Civil que vistoriam as unidades. "É um trabalho de prevenção feito com as pessoas, mostrando o que fazer ao menor sinal de risco", afirmou. No caso de interdições, a prefeitura oferece auxílio moradia, que passou de R$ 200 para R$ 1,2 mil.
Com a perspectiva de entrega de 278 unidades do programa federal Minha Casa, Minha Vida, em construção, o número de famílias que poderão ser atendidas vai aumentar. Atualmente, 446 pessoas estão no programa. Cidinha Louzada explicou que vários pontos da cidade sofreram com deslizamentos, mas que, em Burnier, pela proximidade entre as casas, houve mais vítimas. O problema reflete desigualdades no acesso a moradia pelas pessoas pobres, destacou o professor Felippe.
A prefeitura de Juiz de Fora tem várias obras em andamento ou contratadas para contenção de encostas, com recursos do Ministério das Cidades, do Novo Pac e da Defesa Civil Nacional, totalizando acima de R$ 500 milhões. O processo é lento porque envolve licitação e a burocracia dos bancos públicos, segundo a secretária. Para conter enchentes, a principal e mais cara é a obra de instalação de um pôlder no bairro Industrial, que ficou debaixo d'água. O sistema consiste em isolar uma área inundável por meio de muros e utilizar bombas para remover o excesso de água aos poucos.
Enquanto as obras avançam, sobreviventes e especialistas seguem cobrando um plano de evacuação claro e efetivo. Como resumiu Danilo Frates: "Eles podiam vir alertar antes, fazer prevenção. Porque a pessoa quando vê a chuva, ela se abriga onde ela tem para ir". Na ausência de orientações, completa, as pessoas se sentem seguras em casa mesmo quando o risco é iminente.

