O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez duras críticas às políticas externas dos Estados Unidos nesta terça-feira (14), classificando como "inconsequente" a guerra liderada por Donald Trump contra o Irã. Em entrevista coletiva, o mandatário brasileiro afirmou que o presidente estadunidense "não precisa ameaçar o mundo" em busca de uma imagem de superioridade.

"Isso não é pelo autoritarismo do presidente. Isso é pela conjuntura econômica, pela importância do país, pelo grau de universidade que eles têm. Então, o Trump não precisava ficar ameaçando o mundo", declarou Lula durante conversa com jornalistas dos veículos Brasil247, Revista Fórum e DCM.

O presidente brasileiro foi além nas críticas, relacionando as ameaças de Trump ao impacto na economia global: "Essas ameaças do Trump não fazem bem para a democracia. Essa guerra do Irã é inconsequente", acrescentou, destacando as consequências do conflito nos preços dos combustíveis em todo o mundo.

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Para Lula, o presidente dos Estados Unidos estaria envolvido em um "jogo de narrativas" na tentativa de agradar à população e passar a ideia de que os Estados Unidos seriam um "país onipotente, daquele povo superior". O brasileiro, no entanto, fez questão de separar a admiração pela nação norte-americana da crítica a seu atual líder: "Admiro os Estados Unidos como maior economia do mundo, mas isso é resultado da capacidade de trabalho do povo do país norte-americano".

Solidariedade ao papa

Durante a mesma entrevista, Lula expressou solidariedade ao papa Leão XIV, que trocou críticas públicas com Trump nesta semana. O pontífice havia questionado as ações dos Estados Unidos no Irã e na Venezuela, recebendo como resposta que era "terrível em política externa" e deveria deixar de "agradar a esquerda radical".

"Estive com ele [papa Leão XIV] e saí muito bem-impressionado. [Quero] ser solidário a ele, porque está correta a crítica que ele fez ao presidente Trump. Ninguém precisa ter medo de ninguém", afirmou Lula, ecoando a resposta do papa, que declarou não ter "medo do presidente estadunidense" e acreditar na mensagem de paz do Evangelho.

Cooperação internacional em foco

O presidente brasileiro também abordou a recente parceria entre Brasil e Estados Unidos no combate ao tráfico internacional de armas e drogas, citando como exemplo a prisão do ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) pelo serviço de imigração e alfândega dos Estados Unidos, conhecido pela sigla ICE (U.S. Immigration and Customs Enforcement).

"O Ramagem acho que vai vir para cá. A direita aqui no Brasil está dizendo que ele foi preso por uma multazinha [de trânsito], mas não. Ele foi preso, ele já estava condenado a 16 anos nesse país [Brasil], ele foi um golpista que está condenado. Ele tem que voltar para o Brasil para cumprir a sua pena", explicou Lula.

A Polícia Federal (PF) confirmou em nota que a detenção ocorreu "de cooperação policial internacional entre a Polícia Federal e autoridades policiais dos EUA". Ramagem, ex-diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), foi preso em Orlando, na Flórida, após fugir do Brasil em setembro do ano passado.

O ex-parlamentar havia sido condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 16 anos, 1 mês e 15 dias de prisão por tentativa de golpe de Estado, organização criminosa e abolição do Estado Democrático de Direito. Proibido de deixar o país, Ramagem cruzou a fronteira com a Guiana e embarcou para os Estados Unidos usando passaporte diplomático que não estava apreendido, sendo posteriormente incluído na lista de foragidos da Interpol.

A declaração de Lula ocorre em um momento de tensões geopolíticas globais e reforça o posicionamento do governo brasileiro em defesa da diplomacia e contra medidas unilaterais que possam desestabilizar a economia mundial. O presidente deixou claro que, apesar das críticas às políticas de Trump, valoriza a cooperação técnica e policial entre as duas nações quando esta serve aos interesses da justiça e do Estado de Direito.