Pesquisadores brasileiros publicaram no final de 2025 o maior estudo mundial sobre os efeitos do vírus Zika na infância, reunindo dados de 843 crianças com microcefalia nascidas entre 2015 e 2018 nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste do país. O trabalho, conduzido pelo Consórcio Brasileiro de Coortes de Zika (ZBC-Consórcio) com 12 centros de pesquisa, foi publicado no periódico científico PLOS Global Public Health e representa um marco na compreensão da Síndrome Congênita do Zika (SCZ).

"Não há estudo anterior publicado com esse número de crianças", destacou a pesquisadora Maria Elizabeth Lopes Moreira, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), que integra o consórcio. Ela ressaltou à Agência Brasil que a maior incidência de microcefalia por Zika do mundo ocorreu no Brasil, que viveu uma epidemia da doença entre 2015 e 2016.

Segundo Maria Elizabeth, o resultado mais importante do estudo foi definir a morfologia específica da microcefalia causada pelo Zika. "É uma microcefalia diferente. É uma anatomia diferente, vamos dizer assim. É muito típica da doença por Zika na gravidez. Nas outras microcefalias, o cérebro fica pequeno. Na da Zika, não. Você vê claramente que tem algo diferente. O cérebro colapsa, e a estrutura óssea colapsa junto também".

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A pesquisadora explicou que, na maior parte dos casos, quando a mãe era infectada no segundo ou terceiro trimestre da gestação, o cérebro da criança que vinha crescendo normalmente começava a ter destruição celular e colapsava. Isso vem associado a distúrbios neurológicos, auditivos e visuais. "E muita convulsão de difícil controle para essas famílias, relacionada à epilepsia causada pela Zika".

O professor da Universidade de Pernambuco (UPE), Demócrito Miranda, ressalta que a importância do estudo é consolidar um conhecimento que vem sendo construído nos últimos dez anos, desde o início da epidemia de microcefalia, identificada inicialmente no Nordeste brasileiro.

Principais resultados do estudo

A professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Cristina Hofer, descreve que as sequelas mais frequentes foram as anormalidades estruturais do sistema nervoso central, detectadas por neuroimagem, além de anormalidades nos exames neurológico e oftalmológico. Entre os principais achados:

• Microcefalia ao nascer observada em 71,3% dos casos, sendo 63,9% graves;
• Microcefalia pós-natal registrada em 20,4% das crianças;
• Prematuridade entre 10% e 20%;
• Baixo peso ao nascer com média de 33,2%;
• Malformações congênitas frequentes como epicanto (40,1%), occipital proeminente (39,2%) e excesso de pele no pescoço (26,7%).

Entre as alterações neurológicas, as mais frequentes foram déficit de atenção social (cerca de 50%), epilepsia (30% a 80%, com média de 58,3%) e persistência de reflexos primitivos (63,1%). Nos exames de neuroimagem, foram constatadas calcificações cerebrais em 81,7% dos casos, ventriculomegalia em 76,8% e atrofia cortical em cerca de 50%.

Maria Elizabeth destacou que aproximadamente 30% das 843 crianças estudadas já morreram. As que permanecem vivas estão com idades entre 8 e 10 anos e enfrentam dificuldades na inclusão escolar. "Algumas nem conseguem, porque têm problema de paralisia cerebral grave. As que vão, têm um déficit de atenção grande e de aprendizagem também".

Cuidados e recomendações

Como não existe tratamento específico para o vírus Zika, a primeira recomendação é que mulheres grávidas evitem áreas infestadas pelo mosquito Aedes aegypti durante epidemias, usando repelentes, roupas de mangas compridas e preferindo ambientes com ar condicionado. "Coisas bem complicadas para uma determinada faixa da população", reconhece Maria Elizabeth.

A pesquisadora enfatiza que, ao nascer, as crianças devem iniciar estimulação precoce o mais rápido possível. "Ela tem essa possibilidade. Ainda está formando novas células, e essas novas células na criança são formadas por estimulação. Quanto mais você estimular com estimulação essencial, fisioterapia, fonoaudiologia, melhor vai ser o prognóstico da criança".

Essa recomendação se aplica mesmo quando a criança não apresenta microcefalia ao nascer, mas a mãe foi exposta ao vírus durante a gravidez. "Porque as crianças cujas mães tiveram exposição (ao vírus), mas não tiveram microcefalia, também podem ter atraso de desenvolvimento. E essas respondem muito bem às estimulações precoces".

Maria Elizabeth estima que, em tempos de epidemia, 70% das mulheres grávidas têm Zika e não sabem. "Ou seja, é assintomático. Até hoje, não existe um exame que distinga se uma grávida teve Zika ou não. Uma boa sorologia para Zika ainda não existe".

Desafios para as famílias e sistema de saúde

O pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da UPE, Ricardo Ximenes, recomenda que uma criança que nasce com o vírus da Zika precisa de cuidados por toda a vida. "Esses graves danos ao sistema nervoso central (SNC) exigem cuidados multidisciplinares e assistência de diferentes especialidades médicas e de outras áreas da saúde".

Maria Elizabeth pondera que o acesso a esses cuidados enfrenta obstáculos no Brasil, levando as mães a peregrinarem pelos diferentes serviços do Sistema Único de Saúde (SUS). "É uma carga social muito grande para as famílias", manifestou, acrescentando que, em muitos casos, o marido abandonou a família após o diagnóstico, deixando todo o peso para uma mãe solo.

A pesquisadora salienta a necessidade de desenvolver no Brasil uma vacina para mulheres em idade fértil que as impeça de contrair Zika. Após a publicação do estudo, os pesquisadores continuarão acompanhando as crianças que tiveram Zika, investigando os impactos da doença na vida escolar.

"Essa é a maior dificuldade das crianças, principalmente das que não têm microcefalia, mas cujas mães tiveram Zika na gravidez comprovada", explica Maria Elizabeth. "O grupo com microcefalia vai evoluir com muitos problemas. Mas o outro precisa ser acompanhado, porque também pode apresentar algum distúrbio de desenvolvimento".

Esse acompanhamento é crucial para que estímulos precoces possam prevenir problemas mais graves. "Especialmente a geração que nasceu entre 2015 e 2018, deve ter o neurodesenvolvimento mais cuidadosamente investigado pela pediatria de forma geral", conclui a pesquisadora.