O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, tem suas raízes em lutas históricas por direitos e igualdade. Desde as trabalhadoras têxteis de Nova York em 1908 até as proletárias russas em 1917, a data foi consolidada pela ONU em 1975 como um marco na busca por equidade de gênero. Hoje, essa luta se reflete em espaços como as universidades, onde a presença feminina vem crescendo de forma significativa.
Na Universidade Estadual Paulista (Unesp), as mulheres já são maioria nos cursos de graduação (52,8%) e pós-graduação (54,7%). Um levantamento do Escritório de Gestão de Dados da universidade mostra que as pesquisadoras não apenas predominam na pós-graduação, como também lideram a maior parte dos grupos de pesquisa. Dos 1.296 grupos registrados no CNPq em 2025, 64% têm mulheres na liderança.
Os dados do CNPq revelam um crescimento constante da participação feminina na pesquisa nos últimos cinco anos. O CWTS Leiden Ranking, ranking universitário global, confirma essa tendência: entre 2006 e 2023, houve aumento de pesquisas assinadas por mulheres nas áreas de ciências físicas e engenharia na Unesp. Em ciências biomédicas e saúde, as mulheres foram maioria em todos os anos analisados.
Um símbolo desse avanço é o primeiro Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) com sede na Unesp, o Centro de Pesquisa da Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima), liderado pela bióloga Patrícia Morellato. "O CBioClima abriga uma proporção de pesquisadores associados e bolsistas mulheres maior do que a de homens. Isso não foi forçado, mas é algo interessante e estimulado", conta a pesquisadora, que integra o corpo docente desde 1990.
No CBioClima, 56,3% das bolsistas e estagiárias são mulheres. Morellato ressalta, porém, que ainda não há igualdade de gênero entre os pesquisadores principais do programa. "Pressões externas e sobrecarga são alguns dos fatores que impedem que as cientistas aceitem ocupar tais espaços de destaque", avalia.
A própria trajetória de Morellato ilustra desafios persistentes. "Cresci na carreira muito rápido. Era a mais nova do meu departamento e fui a primeira a fazer livre-docência. Isso aborreceu muitas pessoas na época", lembra. Ela também percebeu diferenças no tratamento: "Percebi que, algumas vezes, os meus colegas homens recebiam consultas sobre questões científicas e automaticamente eram colocados como coautores daqueles trabalhos. Mas isso não acontecia quando eu recebia uma consulta".
Para enfrentar obstáculos como a dupla jornada, a Unesp implementou políticas de apoio. Pilar Sotomayor, assessora da Pró-Reitoria de Pesquisa (PROPe), explica: "A maternidade é o principal fator responsável pela queda de produtividade e a consequente evasão feminina do setor de pesquisa". Entre as medidas estão licença-maternidade para alunas não docentes e editais que adicionam dois anos extras ao período de avaliação de produtividade para quem gestou nos últimos cinco anos.
"Em geral, o homem se dedica à carreira e tem alguém por trás para cuidar de sua vida pessoal. Nós, não. Precisamos lutar e demonstrar o nosso potencial duzentas vezes mais para provar que somos merecedoras daquele cargo", afirma Sotomayor.
A universidade também incentiva a participação em premiações. Em 2022, a linguista Maria Helena de Moura Neves venceu o Prêmio Ester Sabino. Nas últimas cinco edições do Congresso de Iniciação Científica da Unesp, o primeiro lugar em Engenharias foi sempre concedido a mulheres.
Um marco histórico foi a eleição de Maysa Furlan como a primeira reitora da Unesp. "A Academia Brasileira de Ciências demorou mais de 100 anos para eleger como presidente uma mulher, a professora Helena Nader. A Fapesp existe há mais de 60 anos e nunca teve nenhuma mulher no cargo de direção. Fiquei feliz por a Unesp ter completado seus 50 anos com uma mulher na reitoria", destaca Morellato.
Furlan reconhece o momento favorável: "Se as mulheres querem uma ascensão ao cargo de professora associada e depois professora titular, que elas possam planejar isso e encontrar aqui na Unesp um espaço acolhedor". Hoje, as mulheres são 50,8% das coordenadoras de cursos de graduação e 45,4% das coordenadoras de pós-graduação.
No entanto, velhos desafios persistem. As pesquisadoras relatam episódios de machismo, como cortes de auxílios, desestímulo a estudos no exterior e até falas como "vá lavar pratos". "Trabalhamos bravamente para que se encerre o assédio, seja ele de cunho moral ou sexual, nesta Universidade. Isso não é aceitável", reforça Furlan.
Ana Maria Klein, do Grupo de Trabalho Unesp Mulheres, explica que o assédio impacta a saúde mental e a progressão de carreira. Em 2025, foi lançada a campanha "Unesp Sem Assédio — sem medo, sem impunidade", com palestras nas 34 unidades. A PROADE também oferece cursos sobre gênero e violência.
"Este ano, a gestão do GT Mulheres envolve uma mulher de cada campus. Contamos com representantes de todos os segmentos e de todas as áreas do conhecimento, inclusive das trabalhadoras terceirizadas", conta Klein.
Neste 8 de março, que coincide com as comemorações dos 50 anos da Unesp, a universidade reforça seu compromisso. "Estamos em um novo tempo, preparando a Universidade e os caminhos para que todas as pessoas, especialmente as mulheres, possam encontrar um ambiente forte e consolidado em questão de oportunidades", afirma Furlan. "Que elas possam, na Unesp, colocar todas as suas ideias e expertise a favor de uma realização pessoal e profissional."

