Pela terceira vez consecutiva, as mulheres foram maioria no processo seletivo de residência médica do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe) de São Paulo. Os dados de 2026 confirmam uma tendência que vem se consolidando desde 2024, quando as profissionais do gênero feminino representaram 59% do total de inscritos, percentual que subiu para 60% em 2025 e chegou a 61% em 2026.

A perspectiva é de que a presença feminina se intensifique cada vez mais na profissão, um movimento que reflete mudanças sociais profundas e uma maior diversidade na área da saúde. A residente do curso de residência de Pneumologia do Iamspe, Dra. Júlia Giannini Lacerda, 30 anos, foi aprovada no processo seletivo de 2026 e reforça que a presença de mulheres em posições de destaque é transformadora para a sociedade.

"Mulheres em posições de liderança ou de início de carreira inspiram e impulsionam aquelas à sua volta a correrem atrás dos seus sonhos e a persistirem o suficiente para realizá-los. Esse cenário ajuda a combater estereótipos e fortalecer ideias de competência, dedicação e liderança entre as profissionais do gênero feminino", comenta.

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Os números do Iamspe não são um caso isolado. De acordo com o estudo "Demografia Médica do Estado de São Paulo 2026", da Associação Paulista de Medicina (APM) em parceria com a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP), em 2025, as mulheres passaram a corresponder a 52,2% do total de médicos em atividade no estado de São Paulo. É a primeira vez que elas ultrapassam a marca dos 50% no estado mais populoso do país.

O diretor da Comissão de Residência Médica (Coreme) do Iamspe, Dr. Maurício Ventura, comemora a mudança no cenário social e o aumento do número de médicas nos consultórios. "Especialidades médicas que eram predominantemente masculinas hoje têm mais mulheres do que na minha época de estudante. Esse é um movimento de anos, que tem se intensificado e inspirado outras estudantes a escolherem a Medicina como profissão", finaliza o geriatra.

Essa transformação não se limita apenas aos números. A crescente presença feminina na Medicina está redefinindo a prática clínica, a relação médico-paciente e a própria estrutura das instituições de saúde. Especialidades como Pediatria, Ginecologia e Obstetrícia já têm tradicionalmente maior participação feminina, mas agora áreas como Cirurgia, Ortopedia e Cardiologia também registram aumento significativo de mulheres.

O processo de feminização da Medicina brasileira acompanha uma tendência mundial. Nos Estados Unidos e em países europeus, as mulheres já são maioria nas faculdades de Medicina há alguns anos. No Brasil, o movimento ganhou força nas últimas duas décadas, impulsionado por políticas de acesso ao ensino superior e por mudanças culturais que desafiam os estereótipos de gênero.

Para especialistas em educação médica, a diversidade de gênero na profissão traz benefícios concretos para a saúde pública. Estudos indicam que médicas tendem a dedicar mais tempo às consultas, a ouvir com mais atenção as queixas dos pacientes e a adotar uma abordagem mais holística no cuidado. Além disso, a presença de mulheres em posições de liderança nas instituições de saúde contribui para políticas mais inclusivas e ambientes de trabalho mais equilibrados.

O caminho, no entanto, ainda apresenta desafios. Apesar do aumento numérico, as mulheres médicas frequentemente enfrentam disparidades salariais, dificuldades de ascensão na carreira acadêmica e barreiras para conciliar vida profissional e pessoal, especialmente durante a maternidade. A discussão sobre licença-maternidade adequada e apoio às médicas mães tem ganhado espaço nas entidades de classe e nas instituições de saúde.

A residente Dra. Júlia Giannini Lacerda representa essa nova geração de médicas que não apenas ocupa espaços antes predominantemente masculinos, mas também busca transformá-los. Sua trajetória na Pneumologia, especialidade com tradicional predominância masculina, simboliza as possibilidades que se abrem para as mulheres na Medicina contemporânea.

Os dados do Iamspe e do estudo da APM sugerem que a tendência de feminização da Medicina paulista - e brasileira - deve continuar nos próximos anos. Com mais mulheres ingressando nas faculdades de Medicina e nas residências médicas, é provável que em breve elas sejam maioria absoluta na profissão em todo o país, reconfigurando permanentemente o perfil dos profissionais que cuidam da saúde dos brasileiros.