Um problema silencioso atinge uma parcela significativa da população idosa no Brasil: a dificuldade em seguir corretamente as prescrições médicas. A adesão ao tratamento exige atenção, memória e organização consideráveis, e a falha nesse processo pode ter consequências graves. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com o Ministério da Saúde, essa população faz uso extensivo de medicamentos de forma contínua, tornando o acompanhamento ainda mais crítico.

Pensando nesse desafio, o farmacêutico Fernando Bizerra, com doutorado na área de saúde, criou a startup RenovatioMed e desenvolveu um organizador inteligente de medicamentos. O dispositivo, que conta com placa eletrônica e sensores, foi desenvolvido com apoio da Fapesp no âmbito do programa Centelha. A tecnologia capta automaticamente o acesso aos medicamentos, sem depender de ações manuais do paciente ou cuidador em aplicativos. "Nosso dispositivo não depende de ação do paciente ou do cuidador no aplicativo", destaca Bizerra. "Captamos automaticamente o acesso aos medicamentos pelo próprio organizador."

O sistema vai além do simples armazenamento. Ele identifica acessos incorretos e, se o paciente tenta pegar um medicamento fora do horário programado, emite alertas luminosos com LEDs vermelhos para indicar que aquele remédio não deve ser ingerido naquele momento. Todas as informações são registradas e podem ser analisadas pela equipe de saúde. "Nosso foco é evitar esquecimento e prevenir erros de administração", afirma Bizerra.

Publicidade
Publicidade

O organizador acomoda todos os comprimidos de uma semana, de segunda a domingo, para até quatro horários diferentes ao longo do dia. Ele emite alertas sonoros e luminosos, e os potinhos com os medicamentos ficam verdes no horário correto da ingestão. Quando os remédios são tomados, o sistema captura essa informação automaticamente.

A solução foi pensada para três cenários críticos: acompanhamento de idosos e doentes crônicos em ambiente domiciliar, pacientes que saem de procedimentos médicos ou cirúrgicos com novo esquema terapêutico e monitoramento de medicamentos de alto custo, como os quimioterápicos orais utilizados no tratamento do câncer.

No aplicativo da RenovatioMed, familiares e pacientes podem acompanhar todo o processo em tempo real: a lista de medicamentos, os horários de cada dose e se os remédios estão sendo tomados corretamente. Além disso, recebem avisos se algum medicamento for esquecido. "Se depois de 45 minutos o paciente não tiver tomado o medicamento, ele recebe uma notificação no celular", exemplifica Bizerra.

Para instituições de saúde, clínicas médicas e operadoras de planos de saúde, a plataforma oferece funcionalidades ainda mais robustas. É possível acompanhar todos os pacientes que utilizam o dispositivo de forma globalizada, com informações sobre a adesão de cada um, e acessar detalhes do tratamento e perfil individual.

O feedback dos usuários tem sido positivo, segundo Bizerra. "Eles destacam a facilidade de uso do dispositivo e a melhora da rotina de toda a família. Temos pacientes e familiares com o dispositivo há mais de dois anos, com o sistema funcionando sem interrupções ou defeitos. Isso mostra a robustez do aparelho", afirma.

Um caso emblemático envolveu uma paciente diabética cuja glicemia estava descontrolada. A família não conseguia acompanhar o tratamento e havia muitas dúvidas sobre a correta ingestão dos medicamentos. Com o uso do dispositivo, verificou-se que ela apresentou adesão de 100% ao tratamento. Como os exames continuavam mostrando glicemia acima do normal, o médico pôde modificar o tratamento com segurança. "Conseguimos auxiliar a família, a paciente e o profissional de saúde, porque os dados foram utilizados para alterar o tratamento", conta Bizerra.

A RenovatioMed opera com um modelo de aluguel do dispositivo, tanto para operadoras de planos de saúde quanto para clientes individuais. A mensalidade inclui o aluguel do equipamento, acesso ao aplicativo e suporte técnico. Atualmente, a startup atende cerca de 50 pacientes.

Durante a fase de validação, provas de conceito foram conduzidas no sistema Unimed com resultados positivos. "Evoluímos de um protótipo para um produto acabado", relata o pesquisador. A empresa, com sede no Parque de Inovação Tecnológica de São José dos Campos, passou por programas de inovação e fomento dos governos federal e estadual e agora busca expandir a comercialização do dispositivo em escala nacional.