Uma pesquisa realizada pelo Data Favela em dezembro de 2025 revela um retrato complexo e humano das comunidades brasileiras: as favelas reúnem uma população majoritariamente jovem, negra, trabalhadora e com projetos concretos de futuro, mas que convive diariamente com desafios estruturais persistentes em áreas como educação, saúde, infraestrutura e segurança pública. O estudo Sonhos da Favela, baseado em 4.471 entrevistas com moradores maiores de 18 anos de todas as regiões do país, com ênfase no Rio de Janeiro e São Paulo, busca convidar a população e o poder público a conhecer e enfrentar as negligências que impactam a vida nesses territórios.
"O Data Favela acredita que mapear pensamentos, experiências e vivências de moradores de favela é, antes de tudo, um ato de reconhecimento e reparação. Favela não é só ‘problema’ ou ‘estatística’. É também espaço onde existe inteligência coletiva, cultura, empreendedorismo, inovação, verdadeiras estratégias para prosperar", analisa a copresidente da instituição, Cléo Santana. Ela complementa: "Ouvir quem vive a favela todos os dias muda o centro da narrativa: não se trata apenas de ‘falar sobre’, mas de construir dados com as pessoas, a partir do que elas consideram urgente, possível e necessário. Isso tem impacto direto na forma como políticas públicas são desenhadas, como empresas se relacionam com esses públicos e como a imprensa retrata as periferias".
O perfil sociodemográfico dos entrevistados mostra que 58% têm entre 30 e 49 anos, 25% são jovens de 18 a 29 anos e 17% têm mais de 50 anos. Cerca de 60% são mulheres e 75% se identificam como heterossexuais. A questão racial é marcante: oito em cada dez se declaram negros (49% pardos e 33% pretos), enquanto 15% se identificam como brancos. Na educação, 35% têm ensino médio completo, 11% possuem ensino superior completo e 5% têm pós-graduação, enquanto 8% possuem apenas o ensino fundamental completo.
A realidade econômica é dura: aproximadamente 60% dos entrevistados ganham até um salário mínimo por mês. No mercado de trabalho, três em cada dez têm emprego formal com carteira assinada, 34% estão na informalidade (incluindo quem faz bicos), 17% estão desempregados e 8% estão fora da força de trabalho. Além disso, 56% afirmam não receber nenhum benefício governamental. Entre os que recebem, o Bolsa Família/Auxílio Brasil é o mais citado (29%).
Quando projetam o futuro de suas famílias para 2026, os moradores colocam o desejo por uma casa melhor no topo da lista (31%), seguido pela busca por uma saúde de qualidade (22%), entrada dos filhos na universidade (12%) e segurança alimentar (10%). Dignidade e bem-estar básico aparecem como aspirações centrais. Na infraestrutura territorial, as principais mudanças desejadas são saneamento básico (26%), educação (22%), saúde (20%), transporte (13%) e meio ambiente (7%). Dados relacionados mostram que quase 20% da população de favelas vive em vias onde não passam carros e dois em cada três moram em ruas sem árvores.
Os desafios de raça e gênero também são evidentes. Metade dos entrevistados afirma que a cor da pele impacta nas oportunidades de trabalho. Para as mulheres, sete em cada dez apontam a violência doméstica e o feminicídio como o principal desafio dentro da favela, seguido por dificuldades com emprego e renda (43%) e apoio no cuidado com os filhos (37%). Como políticas públicas mais urgentes para mulheres, eles citam programas de inserção no mercado de trabalho (62%), campanhas de educação contra o machismo (44%), delegacias e serviços com atendimento 24h (43%) e cuidado com a saúde da mulher (39%).
Na segurança pública, os dados revelam uma relação complexa com as instituições. Quando perguntados sobre em quem confiam para proteção contra a violência, 27% citam a Polícia Militar, 11% a Polícia Civil e 7% mencionam "facção da minha favela". No entanto, a opção mais votada foi "nenhuma delas" (36%). Sobre a presença policial no território, 24% optaram por não responder, 25% dizem que ela não altera a sensação de segurança, 13% sentem medo e insegurança, enquanto 22% se sentem mais seguros. Um dado simbólico, segundo Cléo Santana, é que 47% têm como maior desejo "poder ir e vir com tranquilidade", mostrando que o futuro ainda é pensado a partir da sobrevivência e do medo.
"Pesquisas como essa funcionam como um megafone para ampliar a voz que a favela já tem", explica Santana. O estudo coincide com alertas de organizações como a Human Rights Watch, que recentemente destacou que o abuso policial gera mais insegurança nas comunidades. Ao traçar um panorama detalhado, o Sonhos da Favela não apenas expõe carências, mas também evidencia a resiliência, os projetos e a potência de milhões de brasileiros que, mesmo diante de adversidades históricas, continuam a construir caminhos para uma vida com mais dignidade.

