A sepse, uma resposta inflamatória desregulada do organismo a uma infecção, é a principal causa de morte entre recém-nascidos prematuros de muito baixo peso. Nos casos de bebês que nascem com menos de 1.500 gramas, essa condição pode se apresentar de duas formas: a sepse precoce, que ocorre até o terceiro dia de vida devido a fatores associados à mãe, e a sepse tardia, que se manifesta após três dias e está ligada a fatores ambientais.
O grande desafio é que, ao nascer, o prematuro tem sistema imunológico imaturo e precisa de dispositivos como ventilação mecânica e acesso venoso central para sobreviver. Esses dispositivos, embora essenciais, podem se tornar portas de entrada para agentes infecciosos, aumentando a vulnerabilidade do bebê.
Desde 1997, a Rede Brasileira de Pesquisas Neonatais (RBPN) reúne pesquisadores de centros universitários de referência para coletar dados sobre esses bebês e estabelecer estratégias para melhorar a assistência nas UTIs Neonatais. A sepse tardia sempre foi um ponto de atenção da Rede, especialmente porque pode ser evitada com mudanças nas práticas assistenciais.
Em 2009, um grupo de trabalho foi criado para acompanhar os fatores associados à sepse tardia nos centros da RBPN. Na época, a incidência chegava a 25% - um em cada quatro bebês apresentava a condição. Mas ao longo dos anos, os pesquisadores perceberam que apenas detectar e alertar as unidades não era suficiente. Em 2020, o índice havia subido para 30%. Foi então que surgiu a necessidade de uma intervenção mais direta.
O projeto DownLOS: da observação à ação
Foi nesse contexto que as professoras Ligia Maria Suppo de Souza Rugolo e Maria Regina Bentlin, do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina de Botucatu, foram designadas pela RBPN para coordenar o Projeto "DownLOS" - onde LOS significa "Late Onset Sepsis", o termo em inglês para sepse tardia.
"Foi proposto um projeto de intervenção, de iniciativa voluntária. A ideia era atuar de forma diferente: não só olhar e relatar, mas agir para melhorar as práticas e reduzir a ocorrência de sepse tardia", explica Rugolo.
Entre 2021 e 2023, o projeto contou com a adesão de 12 centros e propôs mudanças que resultaram em uma queda na incidência de sepse tardia em 67% das unidades participantes. A redução geral foi de 18,5%.
Metodologia: identificando os problemas e propondo soluções
Para atacar o problema, primeiro era preciso identificar os principais fatores associados à sepse tardia. As pesquisadoras utilizaram metodologias de melhoria de qualidade já reconhecidas, como o método PDCA (planejar, fazer, verificar e agir) e os Diagramas de Ishikawa e de Pareto.
Três práticas foram identificadas como especialmente problemáticas: o uso de antibióticos nas primeiras 48 horas de vida em bebês sem infecção; as complicações relacionadas ao cateter venoso central; e o início tardio da utilização do leite materno para nutrição dos prematuros.
"Usar antibiótico precocemente em recém-nascidos prematuros leva a uma disbiose, ou seja, causa alterações na flora intestinal e favorece infecções. Percebemos que esse era um ponto muito sensível na Rede", explica Bentlin. "E o outro ponto era a alimentação. Alimentar o bebê com o leite da mãe precocemente é a melhor estratégia. Quando eu priorizo a nutrição a partir do leite materno, eu também consigo remover mais cedo o catéter vascular e reduzir suas complicações".
Com o mapeamento concluído, o trabalho passou para a implementação de mudanças. Cada centro traçou metas segundo sua própria realidade, utilizando a ferramenta 5W2H (What, Why, Where, When, Who, How, How much) para atribuir tarefas e responsabilidades.
"Para cada item apontado [associado à sepse tardia], foi definido o que fazer, como fazer, o nome da pessoa responsável", pontua Bentlin. "E cada unidade tinha liberdade, dentre esses indicadores que foram selecionados, para definir como chegar a esse objetivo. Porque alguns centros tinham incidência de sepse de 45%, enquanto outros apresentavam índice menor, de 15 ou 20%. A proposta de redução era proporcional, segundo a realidade de cada um".
Resultados concretos
Durante o estudo, foram incluídos 1.993 recém-nascidos prematuros com idade gestacional entre 22 e 36 semanas, pesando entre 400 e 1.499 gramas, sem malformações e internados na UTI Neonatal por mais de 72 horas.
As metas incluíam reduzir complicações relacionadas aos cateteres centrais, suspender antibióticos em bebês não infectados em até 48 horas, incentivar a extração de leite materno nas primeiras 24 horas de vida e alcançar alimentação completa até o décimo primeiro dia de vida.
Os resultados foram promissores: metade dos centros atingiu a meta para complicações relacionadas a cateteres umbilicais e 92% para cateteres percutâneos. Os antibióticos foram suspensos em 48 horas em 67% dos recém-nascidos não infectados. A extração precoce de leite materno e a alimentação por sonda foram alcançadas em 44% e 75% dos casos, respectivamente. E 58% dos recém-nascidos atingiram nutrição completa até o décimo primeiro dia de vida.
Com isso, metade dos centros atingiram as metas individuais estabelecidas e 67% registraram redução na ocorrência de sepse tardia, contribuindo para a diminuição geral de 18,5% na incidência.
Fatores de sucesso e próximos passos
Para Rugolo, os grandes destaques do projeto foram as metas adaptáveis à realidade de cada centro e o constante diálogo entre a equipe de pesquisa e as unidades participantes. "Nessas reuniões periódicas, sempre tivemos o cuidado, ao receber os dados dos centros, de compilar e fazer apresentações dos resultados de forma anonimizada", explica. "Cada centro sabia a sua sigla, mas a gente podia discutir sem nenhum constrangimento. E essa troca de experiências foi muito enriquecedora".
Outro ponto crucial foi a escolha de indicadores factíveis e de baixo custo, considerando que os centros da RBPN pertencem a instituições públicas que muitas vezes enfrentam desafios de infraestrutura. "Mostramos que a sepse é uma causa de morte que pode ser evitável. E para isso existem medidas que podem ser adotadas sem custo, que dependem apenas das nossas ações no dia a dia", esclarece Bentlin.
Agora, em janeiro de 2026, os atuais 24 centros da RBPN foram convidados para uma nova etapa do projeto, com participação ampliada de enfermeiros e técnicos de enfermagem. "Essa não deve ser uma preocupação apenas do médico responsável por uma UTI neonatal. A equipe toda da unidade precisa estar envolvida e vestir a camisa", explica Rugolo.
A expectativa é que a iniciativa se popularize e seja replicada para além da rede. "Foi uma iniciativa que deu certo e pode ser adotada por qualquer unidade neonatal. Não precisa ser universitária. Qualquer unidade tem condição de monitorar esses indicadores e melhorar suas práticas", conclui a professora.

