Famílias do Conjunto Palmeiras, comunidade com o menor índice de desenvolvimento humano de Fortaleza, e da Barra do Ceará, bairro com a maior população acima de 65 anos da capital cearense, serão as primeiras a receber um projeto-piloto nacional de atendimento domiciliar para pessoas idosas. Batizado de Cuidando em Casa, o programa tem previsão de iniciar as atividades em abril e beneficiará inicialmente 300 idosos em cada um dos três municípios participantes: Fortaleza (CE), Juazeiro (BA) e Colombo (PR).
A escolha das comunidades não foi por acaso. O olhar do programa é especial para situações de maior vulnerabilidade social. "Há muitos idosos acamados nessas comunidades em que os filhos precisam trabalhar. Muitas vezes deixam perto água e comida, mas não conseguem garantir que eles consigam de fato se alimentar", explicou a vice-prefeita de Fortaleza, Gabriella Aguiar, que é geriatra, em entrevista à Agência Brasil. Em Fortaleza, a população idosa é de 365 mil pessoas, representando 15% do município, sendo que 65% desses idosos estão em situação de vulnerabilidade.
O projeto piloto conta com recursos do governo federal, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e da Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA). O ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias, explicou que a política pública tem dois objetivos centrais: ampliar a autonomia das pessoas idosas e reduzir a sobrecarga de quem assume a responsabilidade diária pelo cuidado, que na maioria das vezes são mulheres. "Hoje contamos com uma grande rede em todo o Brasil, atuando no cuidado de diferentes públicos, como pessoas idosas e populações em situação de vulnerabilidade", afirmou o ministro durante reunião na sede do BID, em Brasília.
A iniciativa surge em um momento crucial, considerando o processo de envelhecimento acelerado da população brasileira. A secretária nacional de Cuidados e Família do ministério, Laís Abramo, destacou que a experiência nas três cidades vai permitir o aperfeiçoamento da proposta para ser expandida para todo o país. "Nossa intenção é que o atendimento domiciliar passe a integrar, de forma estruturada, o serviço de proteção social básica no domicílio", ressaltou.
Na prática, as ações ocorrerão de forma multidisciplinar, com o apoio das unidades básicas de saúde e dos centros de referência de assistência social. Profissionais de saúde e assistência social farão visitas domiciliares para triagem e implementação do cuidado. Um aspecto inovador do programa é o olhar para quem cuida. De acordo com a coordenadora especial da pessoa idosa da capital cearense, Vejuse Alencar, a maioria das cuidadoras também é formada por pessoas idosas, que serão igualmente acolhidas pelo programa. "A grande maioria delas também já são mulheres idosas, que estão cuidando dos seus pais idosos. Então, esse cuidado, ele é muito exaustivo nesse cotidiano. Muitas vezes, elas têm uma dedicação de mais de 20 horas à pessoa cuidada", pondera.
As representantes do município reconhecem os desafios na manutenção e implementação de um projeto com essa dimensão, mas acreditam que ações públicas como o Cuidando em Casa podem se reverter em economia para o sistema público de saúde, com a redução de internações e a prevenção de doenças. O programa representa um passo importante na construção de uma rede de proteção social mais integrada e humanizada, especialmente para aqueles que, após uma vida de trabalho, enfrentam os desafios da velhice em condições de extrema vulnerabilidade.

