O estado de São Paulo deu início nesta segunda-feira (9) a uma campanha histórica de vacinação contra a dengue, utilizando a Butantan-DV, imunizante desenvolvido pelo Instituto Butantan que representa um marco na luta contra a doença. A ação alcançará todos os 645 municípios paulistas, começando pelos profissionais da Atenção Primária à Saúde da rede municipal.
A Butantan-DV é a primeira vacina do mundo em dose única que oferece proteção contra os quatro sorotipos da dengue, o que significa uma revolução na estratégia de imunização. Enquanto outras vacinas exigem múltiplas aplicações, esta tecnologia brasileira permite uma cobertura mais rápida, com redução de custos e simplificação logística – fatores cruciais para campanhas em grande escala.
Para esta primeira etapa, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) enviou 99 mil doses ao estado, com estimativa de imunizar cerca de 216 mil profissionais da atenção básica. O grupo prioritário inclui médicos, enfermeiros, agentes comunitários de saúde e agentes de endemias – justamente aqueles que estão na linha de frente do combate à doença.
A estratégia foi articulada pela Coordenadoria de Controle de Doenças (CCD) através do Centro de Vigilância Epidemiológica de São Paulo, em parceria com os Grupos de Vigilância Epidemiológica (GVEs) de todas as regiões do estado, o Conselho de Secretários Municipais de Saúde (Cosems-SP) e o Ministério da Saúde. Na semana anterior ao início da campanha, foram realizadas reuniões técnicas e capacitações para preparar a rede de saúde.
A urgência da campanha fica evidente nos números: até 5 de fevereiro, São Paulo registrou 4.647 casos de dengue e um óbito apenas neste ano. Em 2025, o estado já contabilizou 882.884 casos e 1.124 mortes, reforçando a importância crítica das estratégias de prevenção.
Produzida integralmente em São Paulo, a vacina é resultado de anos de pesquisa e inovação científica nacional. A distribuição das doses foi coordenada pela Secretaria de Estado da Saúde, com envio aos municípios baseado em critérios técnicos e na capacidade operacional de cada região.
Paralelamente à campanha geral, Botucatu foi escolhida como município para estudo de impacto da imunização com a Butantan-DV. A seleção considerou a estrutura da rede de saúde local, a experiência em campanhas de vacinação em larga escala e a circulação recente do sorotipo DENV-3. Esta ação integra a estratégia nacional de imunização e será acompanhada por monitoramento técnico e científico rigoroso.
A aprovação da Butantan-DV pela Anvisa tem sólida base científica: cinco anos de acompanhamento de voluntários do ensaio clínico de fase 3 mostraram 74,7% de eficácia geral e impressionantes 91,6% de eficácia contra dengue grave e com sinais de alarme no público de 12 a 59 anos. O estudo, conduzido entre 2016 e 2024, avaliou mais de 16 mil voluntários residentes em 14 estados brasileiros.
Resultados anteriores do acompanhamento foram publicados em revistas científicas de prestígio internacional como The New England Journal of Medicine e The Lancet Infectious Diseases. A vacina se mostrou segura e eficaz tanto para pessoas com infecção prévia quanto para aquelas sem contato anterior com o vírus.
A maioria das reações adversas foi leve a moderada, incluindo principalmente dor e vermelhidão no local da aplicação, dor de cabeça e fadiga. Eventos adversos sérios relacionados à vacina foram raros, com todas as pessoas se recuperando completamente.
Um relatório publicado por pesquisadores britânicos na Human Vaccines & Immunotherapeutics em 2018 já destacava os benefícios da dose única, associando programas de imunização com menos doses a melhor cobertura vacinal e maior efetividade no enfrentamento da doença.
Para ampliar ainda mais o alcance da vacina, o Instituto Butantan recentemente iniciou o recrutamento de voluntários de 60 a 79 anos para novos ensaios clínicos em centros de pesquisa de Porto Alegre, Pelotas e Curitiba. Esta expansão etária poderá, no futuro, proteger um grupo populacional especialmente vulnerável às complicações da dengue.
A campanha paulista representa não apenas um avanço na saúde pública brasileira, mas também um exemplo de como a ciência nacional pode desenvolver soluções inovadoras para problemas de saúde global. Com a Butantan-DV, o Brasil se posiciona na vanguarda do combate a uma doença que afeta milhões de pessoas em todo o mundo tropical e subtropical.

