A solidão pode ser mais do que um estado emocional desagradável - ela pode se tornar um fator de risco real para a saúde física, especialmente quando se trata de recuperação de dor. É o que revela um estudo brasileiro realizado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que mostrou como o isolamento social interfere na transição da dor aguda para a crônica, com impacto particularmente severo em indivíduos do sexo feminino.
O trabalho, publicado na revista Physiology & Behavior e apoiado pela Fapesp, analisou camundongos adultos mantidos em diferentes condições sociais. Enquanto alguns animais foram isolados em gaiolas individuais, outros permaneceram em grupo com quatro animais do mesmo sexo. Todos receberam um corte na pata traseira para simular dor aguda e, duas semanas depois, uma injeção de prostaglandina para reativar a hipersensibilidade e estudar a transição para dor crônica.
Durante o experimento, os pesquisadores avaliaram múltiplos aspectos: a sensibilidade mecânica à dor, as expressões faciais de desconforto dos animais, comportamentos ligados à ansiedade e depressão (como exploração de novos ambientes e estado de apatia), e até mesmo o estado da pelagem como indicador de anedonia - a incapacidade de sentir prazer em atividades que antes eram prazerosas, como alimentação. Também foram monitorados os níveis de hormônios relacionados ao vínculo social e à dor, como ocitocina, vasopressina e corticosterona.
Os resultados foram reveladores. "Somente as fêmeas isoladas continuaram com dor intensa 14 dias após o corte. Foi o único grupo que não se recuperou. A dor foi persistente, tornando-se crônica, antes mesmo que realizássemos a intervenção adicional para cronificação", afirma Daniela Baptista de Souza, professora do Programa Interinstitucional de Pós-Graduação em Ciências Fisiológicas, mantido pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em parceria com a Unesp, e uma das autoras do estudo.
O contraste entre os sexos foi marcante. Enquanto as fêmeas isoladas mantiveram níveis baixos de ocitocina durante todas as etapas do experimento, os machos isolados com dor crônica recuperaram os níveis do hormônio, atingindo patamares similares aos animais que não sofreram estresse social. Os machos isolados demonstraram maior resiliência física e não apresentaram prejuízo na recuperação, embora tenham mostrado exacerbação da ansiedade em comparação com os machos não isolados.
"Com isso, conseguimos mostrar que o isolamento social atrasa a recuperação da dor. No caso, sobretudo, das camundongas, os resultados são tão robustos que não devem ser ignorados para a saúde humana", destaca Baptista.
O grupo das camundongas não isoladas mostrou que o suporte social pode funcionar como um fator de proteção, permitindo que elas recuperassem totalmente a sensibilidade física em duas semanas e o equilíbrio emocional após o estímulo doloroso. Curiosamente, mesmo quando a dor crônica foi induzida nas fêmeas que viviam em grupo, houve redução dos níveis de ocitocina. "Isso sugere que, nelas, o sistema de dor afeta esse hormônio de maneira mais direta do que o ambiente social", observa a pesquisadora.
O estudo é um dos primeiros a demonstrar o impacto da solidão na cronificação da dor levando em conta o sexo biológico dos animais - uma abordagem ainda incomum na pesquisa científica. "Apesar de a dor crônica ser mais prevalente em mulheres, historicamente a inclusão de indivíduos do sexo feminino em ensaios clínicos e pré-clínicos é muito baixa. Isso traz uma série de implicações negativas no entendimento de diferentes aspectos da dor", ressalta Baptista.
Para os pesquisadores, os achados ajudam a explicar por que mulheres são mais propensas a apresentar dor crônica, ansiedade e depressão, e reforçam a necessidade de considerar tanto o sexo biológico quanto o suporte social como variáveis centrais em pesquisas e tratamentos personalizados para a dor.
"O estudo mostrou que o isolamento social prejudica a recuperação das fêmeas de forma mais intensa e duradoura do que nos machos, afetando aspectos físicos, emocionais e hormonais. Esse resultado abre espaço para novas pesquisas. Ainda não conhecemos bem os mecanismos que explicam essa diferença, mas já está claro que a interação social e o sexo biológico são fatores centrais na percepção da dor", conclui a pesquisadora.
Os autores defendem que a solidão passe a ser considerada um fator de risco em pós-operatórios e tratamentos para a dor, especialmente para pacientes do sexo feminino. A pesquisa brasileira oferece assim uma contribuição importante para o entendimento de como fatores sociais e biológicos se entrelaçam na experiência da dor, apontando caminhos para intervenções mais eficazes e personalizadas.

