Histórias marcadas pela vulnerabilidade social estão ganhando um novo capítulo no estado de São Paulo. O programa SuperAção SP, iniciativa do governo estadual que integra políticas públicas de diferentes áreas, está formando agentes de desenvolvimento social que têm uma característica especial: muitos deles já estiveram do outro lado, como beneficiários da rede de proteção social. Agora, transformam suas experiências pessoais em ferramentas para ajudar outras famílias a reconstruírem seus caminhos.
Da vulnerabilidade ao protagonismo
Alice Ferreira é uma dessas agentes. Formada em Tecnologia da Informação, ela relata que há três anos passou por uma situação de vulnerabilidade social. "Fui vítima de um relacionamento abusivo, que me impedia de me desenvolver profissionalmente. Passei muito tempo sem trabalhar, com muita dificuldade", conta. Moradora de Indaiatuba, na região de Campinas, ela foi incentivada por uma assistente social a se inscrever na formação para agente do SuperAção SP. "Ela acreditou no meu potencial, me encorajou e eu me dispus a fazer parte desse projeto. Com certeza vou ter um olhar sensível e mais humano, porque sei o que é estar sob vulnerabilidade emocional", afirma Alice.
O ciclo da solidariedade
Jaqueline Balbino também conhece bem a realidade das famílias atendidas pelo programa. Natural de Pernambuco e criada no estado de São Paulo, ela foi usuária do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) durante muito tempo. "Foi a assistência social que me deu alguns caminhos possíveis de serem trilhados para que eu pudesse chegar à formação profissional e estar aqui agora", explica Jaqueline, que se formou em Serviço Social. Para ela, o SuperAção SP oferece "um novo olhar para as necessidades dos mais vulneráveis".
Profissionais com sensibilidade social
Suzinei Celso, também assistente social, destaca sua origem humilde como motivação para atuar no programa. "Trabalhar nesse projeto para mim é muito satisfatório e gratificante. Também sou da classe trabalhadora e de origem humilde. Espero que o impacto seja grande para todas as famílias que serão alcançadas por essa política", afirma.
Formação recorde
Março marcou a maior formação de agentes desde o início do SuperAção SP. Ao longo do mês, 213 profissionais foram capacitados em uma iniciativa da Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo (SEDS), em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV Projetos) e a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Esse grupo faz parte dos 302 profissionais contratados para atuar nos municípios que aderiram à primeira onda do programa.
Durante a capacitação, os agentes passaram por aulas teóricas e práticas sobre construção de vínculos de confiança, uso de tecnologias digitais para monitoramento e elaboração de planos familiares. O objetivo foi garantir alinhamento metodológico, fortalecer a rede de apoio e assegurar que o atendimento às famílias ocorra de forma humanizada, eficiente e baseada em evidências.
Expansão pelo estado
A formação desses 213 agentes representa mais uma etapa na expansão do SuperAção SP. Até então, 89 agentes já atuavam em oito municípios das regiões metropolitanas de São Paulo, Campinas, Sorocaba e Baixada Santista. Agora, o programa se expande para dezenas de novos municípios em três regiões administrativas do estado.
Na Região Administrativa de São Paulo, o programa chega a Caieiras, Cajamar, Carapicuíba, Cotia, Diadema, Guarulhos, Mauá, Osasco, Santana de Parnaíba, Santo André, São Bernardo do Campo e Taboão da Serra. Na região de Campinas, a expansão inclui Americana, Araras, Cordeirópolis, Elias Fausto, Holambra, Indaiatuba, Iracemápolis, Itatiba, Itupeva, Jaguariúna, Jarinu, Jundiaí, Limeira, Louveira, Mairinque, Monte Mor, Mogi Mirim, Nova Odessa, Pedreira, Santa Bárbara D'Oeste, Santa Gertrudes, Santo Antônio de Posse, Sumaré, Valinhos, Várzea Paulista e Vinhedo. Na região de Sorocaba, o programa avança para Itu e Mairinque.
Como funciona o programa
O SuperAção SP é voltado a famílias residentes no estado, inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) e com renda familiar por pessoa inferior a meio salário-mínimo nacional. O atendimento ocorre diretamente nos territórios, com agentes visitando as famílias em suas casas para realizar um diagnóstico e construir com elas o Plano de Desenvolvimento Familiar (PDF), documento que organiza metas e oportunidades de acordo com o perfil profissional, educacional e social de cada família.
O trabalho inclui conectar as famílias a políticas públicas às quais já têm direito, mas que muitas vezes não acessavam por falta de informação, orientação ou acesso. O acompanhamento pode durar até dois anos, com monitoramento adicional para avaliação dos avanços.
O programa atua por meio de duas trilhas de apoio. Na Trilha de Proteção Social, famílias em situação de maior vulnerabilidade recebem acompanhamento prioritário com auxílio mensal para atendimento de necessidades básicas. Já na Trilha de Superação da Pobreza, o foco é a capacitação, a qualificação profissional e a inclusão no mundo do trabalho, com acompanhamento contínuo e diversos incentivos financeiros ao longo da jornada.
Investimento e metas
Atualmente, o SuperAção SP está presente em 48 municípios que aderiram à primeira onda. A iniciativa prevê beneficiar 105 mil famílias até 2027, com investimento superior a R$ 1,5 bilhão, entre recursos do Tesouro Estadual e financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Para Alice Ferreira, que já sentiu na pele a vulnerabilidade social, participar do programa representa mais do que uma oportunidade profissional. "Para mim, é um desafio fazer com que as pessoas acreditem que é possível, sim, elas saírem dessa situação. É possível, sim, dar essa virada; é possível lutar por dias melhores, por condições melhores. Eu sou uma prova disso", afirma, resumindo o espírito que move essa rede de transformação social.

