A Universidade Estadual Paulista (Unesp) está reforçando suas ações de combate a trotes violentos e práticas abusivas com o lançamento do Guia para o Acolhimento de Ingressantes. O material, disponibilizado para toda a comunidade universitária, chega em um momento estratégico: boa parte das unidades da universidade inicia o ano letivo no dia 23 de fevereiro, logo após o Carnaval.

Desenvolvido pela Pró-Reitoria de Ações Afirmativas, Diversidade e Equidade (Proade), o documento segue as diretrizes do programa "Unesp Sem Assédio" e representa uma resposta concreta às discussões promovidas em rodas de conversa com estudantes durante 2025. Nessas ocasiões, os próprios alunos relataram situações de violência vivenciadas no ambiente universitário.

"Pensamos no acolhimento dos novos estudantes a partir da mentoria acadêmica, que já desenvolvíamos nos anos anteriores, aliada a uma proposta de promoção da saúde física e mental para receber os jovens que estão chegando à Universidade", explica a pró-reitora de graduação Célia Maria Giacheti.

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O guia não se destina apenas às coordenações de curso e comissões de recepção. Estudantes veteranos também são público-alvo, especialmente aqueles envolvidos no programa de mentoria acadêmica da Pró-Reitoria de Graduação (Prograd). Nessa iniciativa, veteranos supervisionados por professores ajudam os calouros na adaptação à vida universitária.

"Queremos dizer aos novos alunos que são bem-vindos, explicar o funcionamento da instituição e os mecanismos de proteção e denúncia que temos. Também nos preocupamos em esclarecer que algumas situações que parecem brincadeira são, na verdade, formas de violência", destaca a professora Ana Maria Klein, assessora da Proade e uma das autoras do material.

O documento propõe uma mudança cultural significativa: substituir práticas historicamente associadas ao trote por atividades baseadas em princípios formativos. O texto deixa claro que o trote não deve ser visto como "tradição inofensiva", mas sim como "expressão de relações de poder e de violências simbólicas e morais".

O guia alerta sobre consequências graves das práticas abusivas: "Atividades degradantes, constrangimentos públicos, coerções e práticas discriminatórias podem afetar a saúde mental, influenciar o desempenho acadêmico e até impactar a permanência estudantil".

Além das orientações práticas, o material sistematiza toda a legislação pertinente, incluindo a Lei Estadual nº 10.454/2015, a Lei nº 18.013/2024, a Resolução Unesp nº 86/1999 e a Portaria Unesp nº 68/2022. Esta última estabelece os fluxos para acolhimento e encaminhamento de denúncias de assédio e violência.

"Desvelar um discurso que naturaliza a violência é o primeiro passo para o enfrentamento do problema. Se não for uma relação saudável, não tem espaço na universidade", afirma a professora Ana Maria Klein.

O documento também detalha os canais de apoio disponíveis na universidade. A Ouvidoria da Unesp aparece como espaço formal para registro e encaminhamento de situações envolvendo violência, assédio ou discriminação. Já o Acolhe Unesp é apresentado como serviço de escuta especializada para casos de violação de direitos.

"A Unesp somos todos nós. Por isso, é importante difundir uma cultura de pertencimento: todos que participam da comunidade acadêmica precisam agir de maneira congruente. É uma responsabilidade de todos", finaliza Ana Maria Klein.

O guia está disponível para acesso público e representa um marco no esforço institucional para transformar a recepção de calouros em um processo verdadeiramente acolhedor e formativo.