Há exatamente meio século, no dia 14 de abril de 1974, a estilista Zuzu Angel dirigia pelo túnel Dois Irmãos, na zona sul do Rio de Janeiro, quando seu carro foi empurrado contra a proteção de um viaduto e despencou de um barranco. O atentado, forjado como acidente, silenciou uma das vozes mais corajosas e persistentes contra a ditadura militar brasileira. Zuzu tinha 53 anos quando foi assassinada, após cinco anos de busca incansável pelo filho desaparecido e de denúncias públicas que atravessaram fronteiras.
Zuleika de Souza Netto, conhecida como Zuzu Angel, nasceu em Curvelo, Minas Gerais, em 1921, e mudou-se para o Rio de Janeiro em 1939, onde construiu uma carreira internacional como estilista. Sua vida tomou um rumo dramático quando seu filho mais velho, Stuart Edgard Angel, estudante de economia e militante da organização revolucionária MR8, foi preso, torturado e morto nas dependências do Centro de Informações da Aeronáutica (Cisa) em 1971. A partir daí, Zuzu transformou sua dor em ação política.
Maternidade como linguagem política
Segundo a historiadora Cristina Scheibe Wolff, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a jornada de Zuzu faz parte de um movimento amplo de mães que transformaram a dor em ação durante as ditaduras da América do Sul. "Essa estratégia dialogava com padrões de gênero da época que eram aceitos por muitos, inclusive pelos próprios agentes da ditadura. As mulheres eram pensadas a partir do lugar da maternidade. Então, mães de desaparecidos apresentavam uma imagem mais humanizada de pessoas que a ditadura considerava bandidas e terroristas", explica a pesquisadora.
Para Wolff, esses movimentos de familiares foram mais efetivos do que a luta armada para enfraquecer as ditaduras no Cone Sul. "Acabou sendo mais efetivo do que a luta armada, porque essa acabou vencida e praticamente desapareceu no Brasil na década de 1970. Movimentos de familiares chamaram a atenção para o lado perverso da ditadura militar", completa.
Moda como instrumento de protesto
O que diferenciou a luta de Zuzu Angel foi o uso criativo de sua posição como estilista famosa com articulações internacionais. Ela passou a inserir símbolos de denúncia em suas coleções, transformando desfiles em manifestações políticas. Bordados com anjos feridos, figuras de crianças mortas, tanques de guerra e pássaros em gaiolas foram usados como metáforas visuais da repressão e do luto. A trilha sonora e cenografia de seus desfiles reforçavam o tom fúnebre e crítico.
"Ela fez um trabalho de sensibilização falando do filho com aquele carinho maternal e teve solidariedade de outras mães que estavam em situações semelhantes", recorda Hildegard Angel, jornalista e filha de Zuzu. "Era um destemor muito atípico na época, porque o que a gente presenciava era o silêncio submisso e amedrontado de muita gente."
Denúncias que cruzaram fronteiras
Zuzu não se limitou ao ativismo dentro do Brasil. Ela buscou apoio nos Estados Unidos e em organismos internacionais, mantendo contato frequente com o então secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, e mobilizando jornalistas estrangeiros para dar visibilidade ao desaparecimento do filho. Essa estratégia ajudou a expor as violações de direitos humanos no Brasil em um momento de forte censura interna.
"Ela começou a denunciar a morte do Stuart ainda no governo do [Emílio Garrastazu] Médici e continuou o seu ativismo durante o governo do [Ernesto] Geisel. Desafiou dois governos totalitários. E pagou um preço por isso", completa Hildegard Angel.
Coragem que gerou ódio
A postura destemida de Zuzu despertou a ira dos agentes da repressão. "Naquela época, desafiar o sistema era considerado uma loucura, porque era quando você desafiava sua própria sobrevivência. Perto do ateliê dela, às vezes, parava uma patrulhinha e ela confrontava os agentes. Dizia: 'Não tenho medo de vocês. Sei que estão me seguindo, mas já tiraram meu filho e não trarão ele de volta'", lembra a filha.
"Essa luta foi gerando um ódio muito grande nos militares. Como aquela mulher tinha coragem de desafiar o regime e sair nas matérias dos jornais?", acrescenta Hildegard. Zuzu chegou a avisar amigos que, caso aparecesse morta, teria sido vítima dos mesmos assassinos do filho.
Verdade e reconhecimento tardios
Durante décadas, a versão oficial manteve a morte de Zuzu como acidente. Somente em 2014, a Comissão Nacional da Verdade, após investigação que incluiu depoimento de um ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), confirmou o assassinato. No fim do ano passado, a família recebeu do Estado brasileiro uma certidão de óbito retificada, em que a causa da morte é descrita como violenta e causada pelo próprio Estado.
O legado de Zuzu Angel se traduz em reconhecimento institucional e preservação da memória. "Acumulamos uma série de conquistas ao longo desses anos. Conseguimos mudar o nome de um túnel [no Rio de Janeiro] para Zuzu Angel, conseguimos que ela fosse a primeira heroína contemporânea do livro dos heróis e heroínas da pátria. Foram muitas homenagens, medalhas, troféus. Fizemos o primeiro curso superior de moda no estado do Rio de Janeiro e a Casa Zuzu Angel/Museu da Moda", enumera Hildegard.
Legado para o presente
Para a historiadora Cristina Scheibe Wolff, a trajetória de Zuzu Angel amplia a compreensão sobre como enfrentar poderes autoritários. "Ela deixou um legado de combate à ditadura. Mostrou que resistência se faz de múltiplas formas, não só de uma forma convencional. Pode ser política, pode ser feita com armas, mas também pode acontecer por meio da arte e da cultura. E isso serve de lição para os dias de hoje: entender que há outras possibilidades de luta", analisa.
"É um processo contínuo, porque o trabalho dela nunca parou. Ela morreu, mas o legado permanece. A luta da Zuzu frutificou", conclui Hildegard Angel, lembrando que, cinco décadas após seu assassinato, a coragem da estilista continua a inspirar novas gerações na defesa da democracia e dos direitos humanos.

