Anos a fio, o homem que gritava verdades em escassos segundos na TV foi tratado como uma caricatura. Hoje, as redes sociais o canonizaram como um profeta incompreendido. Em 1994, Enéas teve seu auge com impressionantes 7,46% dos votos válidos. Se propuséssemos que todos os votos brancos e nulos históricos — que costumam flutuar entre 6% e 10% — fossem creditados a ele, o Dr. Enéas seria eleito por aclamação no dia de hoje.

Essa nossa injustiça cultural se manifesta de forma idêntica na ciência. Enquanto em 1949 o Prêmio Nobel coroava o neurocirurgião português António Egas Moniz pela criação da destrutiva lobotomia, a Dra. Nise da Silveira desafiava o mundo ao proibir eletrochoques e defender a cura pelo afeto. Genial e revolucionária, ela faleceu sem indicações a Estocolmo e, décadas depois, teve a sua entrada no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria inicialmente vetada pelo então presidente da República em 2022, sob a alegação oficial de que não era possível mensurar o impacto de seus feitos. 

Para piorar o diagnóstico da nossa esquizofrenia coletiva, o tribunal da internet opera em uma matemática paralela. O volume de visualizações e a comoção nacional em torno do trágico caso do cão Orelha geraram um engajamento digital que superaria, numericamente, os 60 milhões de votos necessários para eleger um presidente em primeiro turno. Mas o clique é passivo. Na hora de transformar indignação em ação, o Brasil das telas se perde. A Síndrome de Enéas prova que o brasileiro só descobre o valor do farol quando já está navegando no escuro absoluto.

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Em tempo: a Doutora Ana Lourdes DeOliveira foi palestrante em Harvard, apresentando à comunidade científica internacional seu testemunho. Ela sofreu um afogamento aos 16 anos, perdeu o hemisfério esquerdo do cérebro, descobriu a cura para sua própria deficiência e pagou todas as pesquisas e a viagem a Boston com seus próprios recursos. Não saiu uma única linha na imprensa brasileira a respeito dela. Menos um Nobel para o Brasil. 

 

Nota do Autor:

 

Depois de 76 anos repetindo o mantra da adoção de animais como fator de melhoria da qualidade de vida e da saúde mental das pessoas, tenho visto matérias do mundo todo, exaltando esses mesmos dados, mas creditando sua autoria a outras pessoas. Estou replicando tais matérias, para que o público possa avaliar o grau de penumbra dessa nossa imensa caverna de Platão, onde os prisioneiros vivem no escuro, de costas para a realidade, e acreditam que as sombras projetadas na parede são o mundo real. Na história original, o filósofo que consegue se libertar, sai da caverna, vê a luz do Sol (a verdade) e tenta voltar para alertar os outros é ridicularizado e rejeitado pelos que preferem continuar no escuro.

 

Feliz 2056!