Passados mais de cinco décadas, a dor permanece viva, mas a luta por verdade e memória segue firme. Nesta terça-feira (31), o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos entregaram 27 atestados de óbito retificados em evento na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador. Entre os documentos, está o de Maurício Grabois, baiano, deputado constituinte em 1946 e uma das vítimas da ditadura militar.
A retificação muda oficialmente a causa da morte para "ação violenta do Estado", um reconhecimento formal do que familiares como sua filha, Victória Grabois, já sabiam há décadas. Aos 82 anos, Victória é uma das fundadoras do movimento Tortura Nunca Mais e vive no Rio de Janeiro. Ela não estará presente na cerimônia, mas sua voz ecoa forte: "Quero que abram os arquivos e que digam onde mataram, como mataram e quando mataram".
Em 1973, Victória perdeu o pai, Maurício, o irmão, André, e o marido, Gilberto Olímpio, assassinados por agentes do Estado na região da Serra do Araguaia, onde atuavam na guerrilha contra o regime. Os corpos nunca foram entregues à família. "Não posso parar e faço tudo o que eu puder fazer para divulgar a memória e acabar com o silenciamento", afirma a professora e ativista.
Para Victória, as certidões retificadas são um passo importante, mas insuficiente. "Meu pai foi um grande homem. Ele deu o seu bem maior, a vida, e levou o seu filho junto, em prol da liberdade do Brasil e da democracia", diz. Ela pede que o Estado vá além da correção dos documentos e investigue efetivamente o que ocorreu com as vítimas. "Ele era um homem de princípios que me ensinou a ser uma pessoa digna. Essa é a lembrança que tenho do meu pai", completa, referindo-se aos anos em que conviveu com Maurício até os 29 anos de idade.
Segundo a presidente da comissão de mortos e desaparecidos, Eugênia Gonzaga, a prioridade pelas retificações se revelou a mais importante das medidas de reparação. "É uma iniciativa que vem sendo muito bem recebida e a gente quer, então, fazer as 434 retificações para todas as famílias e, se possível, fazer a entrega delas em ocasião solene, com pedido de desculpas", afirmou. Ela também criticou a falta de abertura completa dos arquivos das Forças Armadas: "Apesar de muitos documentos já terem sido revelados, já estarem nos arquivos públicos, a gente não tem a versão definitiva sobre o local das mortes, ou melhor, sobre as circunstâncias de muitas das mortes e os locais de enterro de corpos".
Para Eugênia, é uma falha do sistema de justiça brasileiro ainda não ter dado respostas definitivas para as famílias. Além do documento de Maurício Grabois, estão prontas para entrega as certidões de desaparecidos que ganharam notoriedade ao serem retratados em filmes, como Carlos Lamarca e Stuart Edgar Angel Jones, filho da estilista Zuzu Angel.
O movimento Tortura Nunca Mais, do qual Victória é fundadora, homenageou na segunda-feira (30) defensores dos direitos humanos com a medalha "Chico Mendes", em sua 38ª edição. A condecoração, criada como contraponto à medalha do Pacificador do Exército, lembrou neste ano o guerrilheiro Francisco Manuel Chaves, desaparecido no Araguaia, e a socióloga Yara Yavelber, também assassinada por agentes do Estado. A homenagem também incluiu mães que perderam filhos para a violência policial, como a ativista Solange de Oliveira, fundadora do Movimento Mães em Luto da Zona Leste, em São Paulo.
Victória Grabois destaca que a cultura tem sido uma aliada na luta contra o esquecimento. Ela cita os dois últimos filmes brasileiros que participaram do Oscar e trataram da ditadura como importantes para "furar a bolha" na sociedade. "Os filmes fizeram com que as escolas mostrassem mais interesse em saber sobre aquele período de opressão", observa. "A Guerrilha do Araguaia, por exemplo, passou a ser mais um fato histórico para as pessoas."
Apesar dos avanços, Victória não tem esperanças reais de saber o que aconteceu com seus familiares. "Passados 53 anos, ela, que tem hoje 82, diz que não tem esperanças reais de saber o que aconteceu com as pessoas de sua família", conforme relatado. No entanto, a determinação em lutar pela verdade, pela memória e contra o silenciamento permanece intacta. Como ela mesma afirma: "Lembramos das violações que foram cometidas no passado e no presente e de pessoas que lutam contra".
Enquanto novas certidões são entregues e a batalha judicial pela abertura dos arquivos continua, histórias como a de Victória Grabois lembram que a busca por justiça e memória é um processo contínuo, essencial para a democracia brasileira.

