O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta quinta-feira (26) que ainda é necessário tempo para compreender os impactos da guerra no Oriente Médio na inflação e no crescimento da economia brasileira. Durante entrevista coletiva em Brasília, após a divulgação do Relatório de Política Monetária do BC, Galípolo destacou que a política monetária conservadora e contracionista adotada pela autarquia nos últimos períodos colocou o país em uma posição mais favorável para enfrentar os efeitos do conflito.

"A parcimônia, a serenidade e o conservadorismo do Banco Central ao longo do final de 2024, no ano de 2025 e agora no início de 2026 concedem ao Banco Central a possibilidade de tomar mais tempo para poder entender quais são os desdobramentos desse conflito", disse Galípolo, referindo-se ao atual choque de oferta causado pelo bloqueio do estreito de Ormuz, no Oriente Médio, após os ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã.

O bloqueio do estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas para o transporte de petróleo, tem levado a aumentos significativos nos preços do petróleo e seus derivados em todo o mundo. Galípolo explicou que, inicialmente, o diagnóstico apontava para um choque de oferta de natureza logística, mas que essa interpretação vem se ampliando. "Quando a gente olha para o início do conflito, olhando para a curva de petróleo, para a precificação, talvez a gente possa dizer que o diagnóstico original é de um choque de oferta decorrente de um estrangulamento mais de ordem logística", afirmou. "Parece que vem ganhando uma interpretação de que hoje esse é um choque de oferta, que não afeta mais simplesmente uma questão logística, relativa a fechar o estreito de Ormuz, mas que afeta logística e capacidade produtiva também".

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O presidente do BC fez um paralelo com momentos anteriores de choque de oferta, como a pandemia da covid-19, a guerra da Ucrânia e a guerra tarifária promovida pelos Estados Unidos. Segundo ele, há um consenso entre os banqueiros centrais de que esse tipo de choque tende a produzir inflação para cima e crescimento para baixo. "Nesse cenário, o que acaba acontecendo é que o intervalo de confiança para as projeções se amplia e a confiança que a gente tem em uma projeção se reduz", acrescentou Galípolo, destacando a incerteza que paira sobre os efeitos da guerra na economia global.

Na mesma coletiva, o Banco Central divulgou seu Relatório de Política Monetária, mantendo a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 1,6% para 2026. O dado, referente ao primeiro trimestre deste ano, é o mesmo divulgado no relatório de dezembro do ano passado. No entanto, o documento ressalta que a previsão está sujeita a "maior incerteza" diante dos potenciais efeitos dos conflitos no Oriente Médio.

O relatório do BC destaca que, se prolongado, o conflito pode ter impactos predominantes no país e no exterior consistentes com um choque negativo de oferta, aumentando a inflação e reduzindo o crescimento. A autarquia observa, porém, que alguns setores da economia brasileira, especialmente o petrolífero, podem se beneficiar da situação, embora isso não compense os efeitos negativos gerais.

Enquanto isso, outras áreas do governo também monitoram os desdobramentos do conflito. Notícias relacionadas indicam que o Brasil está acompanhando o impacto da guerra na distribuição de medicamentos, um setor sensível que pode ser afetado por interrupções na cadeia logística global. A situação reforça a necessidade de cautela e análise contínua por parte das autoridades econômicas e de saúde.

Galípolo enfatizou que, diante desse cenário complexo, a postura conservadora do Banco Central nos últimos anos tem sido fundamental para criar uma margem de segurança. Essa abordagem permite que a autarquia avalie com mais calma os desdobramentos do conflito antes de tomar decisões sobre a política monetária, como possíveis ajustes na taxa básica de juros (Selic). A prioridade, segundo ele, é entender a natureza e a magnitude dos impactos antes de agir, evitando medidas precipitadas que possam agravar a situação econômica.

O momento exige, portanto, uma análise cuidadosa por parte do BC e de outros órgãos governamentais, com atenção redobrada aos indicadores econômicos e às mudanças no cenário internacional. A guerra no Oriente Médio segue como uma variável de risco significativa para a economia brasileira em 2026, e sua evolução será determinante para as projeções e políticas públicas nos próximos meses.