A Fundação Procon-SP realizou um levantamento inédito sobre o comportamento do consumidor durante a Black Friday, revelando como as estratégias de marketing influenciam – e por vezes iludem – o público na hora das compras. A pesquisa, conduzida pelo Núcleo de Pesquisas da Diretoria de Estudos e Pesquisas, ouviu 329 consumidores entre 30 de outubro e 17 de novembro, através do site e redes sociais da instituição.
O interesse pela Black Friday permanece alto, mas a desconfiança é generalizada. Segundo o estudo, 88% dos entrevistados (equivalente a 290 pessoas) declararam acompanhar ofertas durante o período, independentemente de efetuar uma compra. No entanto, essa curiosidade esconde uma realidade preocupante: 76,47% dos compradores já se sentiram enganados pelo menos uma vez na data, evidenciando uma contradição entre o desejo de aproveitar promoções e a percepção de que os descontos nem sempre são reais.
Os gatilhos de marketing, como mensagens do tipo 'só hoje', 'estoque limitado' ou 'últimas unidades', continuam provocando forte reação emocional e acelerando decisões de compra. A pesquisa mostra que 38,3% dos consumidores param e analisam antes de decidir, 24,32% afirmam que 'depende do produto' e 5,17% admitem comprar rapidamente por medo de perder a oferta. Isso indica que, embora o consumidor esteja mais crítico, os estímulos de urgência ainda funcionam efetivamente.
Outro ponto sensível identificado pela pesquisa é o famoso 'parcelamento sem juros'. 42,55% dos entrevistados relataram descobrir, só depois da compra, que a operação não era realmente isenta de juros, transformando a promessa de facilidade no pagamento em uma das maiores fontes de frustração e desinformação.
A influência social também se mostrou um fator decisivo. 72,03% dos consumidores já compraram algo em promoção influenciados por outras pessoas, incluindo amigos, familiares, influenciadores digitais ou redes sociais. Esse dado reforça o papel das campanhas publicitárias e do marketing digital na decisão de compra, especialmente em datas com grande apelo promocional, ao mesmo tempo que aumenta a responsabilidade das empresas em relação à satisfação do cliente e possíveis consequências legais em caso de descumprimento de oferta.
A percepção sobre os preços durante a Black Friday é marcada pela desconfiança e, em alguns casos, pela sensação de exploração. 67,18% dos consumidores afirmam continuar comprando alguns produtos mesmo considerando o preço alto, muitas vezes por necessidade ou confiança na marca. Já para 32,52%, preço alto é interpretado diretamente como exploração. Além disso, a maioria dos entrevistados duvida da efetividade dos descontos: 57,59% acreditam que 'nem sempre' os preços diminuem, 37,93% dizem que 'em geral não há redução' e apenas 4,48% percebem bons descontos reais.
Apesar do ceticismo, 77,78% dos consumidores veem a participação na Black Friday como uma forma de economizar, com três fatores sendo decisivos na hora da compra: preço final, percentual de desconto e confiança na loja ou no site. Essa dualidade entre esperança e desconfiança caracteriza o comportamento do consumidor brasileiro na data.
O ineditismo da pesquisa do Procon-SP está em investigar não apenas aspectos objetivos como preço e desconto, mas também emoções, impulsos e sentimentos envolvidos no consumo. Pela primeira vez, o órgão reuniu e analisou de forma ampla como os consumidores reagem psicologicamente às campanhas promocionais, incluindo o impacto de gatilhos emocionais, a influência social, e sentimentos como culpa, arrependimento e ansiedade.
O Procon-SP reforça que os fornecedores devem cumprir rigorosamente as regras do Código de Defesa do Consumidor, garantindo informações claras sobre preço total (incluindo frete), características do produto, condições de pagamento, respeito às ofertas publicadas e políticas de troca transparentes. Práticas abusivas, como venda casada, limitação injustificada de meios de pagamento e aumento artificial de preços, são expressamente proibidas.
Para os consumidores, a orientação é pesquisar preços com antecedência, desconfiar de mensagens que criam pressão emocional e denunciar qualquer oferta enganosa. Quem tiver problemas com compras durante a Black Friday pode registrar uma reclamação no site www.procon.sp.gov.br, onde há um atalho específico para classificar a queixa, agilizando a mediação de especialistas em busca de uma solução.

