Enquanto muitos espaços carnavalescos ainda apresentam barreiras físicas e sociais que limitam a participação de pessoas com deficiência (PCD), um bloco em Brasília transforma essa realidade há 14 anos. Fundado pela historiadora Lurdinha Danezy Piantino junto com pais e representantes de entidades, o Deficiente é a mãe nasceu do entendimento de que acessibilidade não é favor, mas direito, combatendo diretamente o capacitismo – a discriminação que subestima capacidades e trata PCDs como inferiores.

"A pessoa com deficiência tem que ocupar todos os espaços: sociais e culturais. E o momento cultural mais importante do ano é o carnaval. Então, a pessoa com deficiência tem que estar junto", afirma Lurdinha, que vê no bloco uma ferramenta de resistência contra a exclusão que muitas vezes se manifesta na falta de rampas, calçadas acessíveis, piso tátil, transporte público adaptado, espaços reservados com vista elevada para cadeirantes e intérpretes de Libras.

Entre os participantes mais emblemáticos está Lúcio Piantino, de 30 anos, filho de Lurdinha e artista multifacetado que dá vida a Úrsula Up – a primeira drag queen com síndrome de Down do Brasil e voz ativa na causa LGBTQIA+. Fora dos palcos, Lúcio expande seus talentos como ator, artista plástico, dançarino e palhaço. Gay e apaixonado pelo carnaval desde a infância, ele acredita que "sinto-me ótimo. É a vida, que é muito boa" e vê nos blocos ferramentas essenciais para inclusão.

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Outro fundador do bloco é o servidor público aposentado Luiz Maurício Santos, de 60 anos, cadeirante há 28 anos devido a um acidente de moto. Ele relata as dificuldades burocráticas e de recursos para colocar o bloco na rua, mas defende que o resultado vale a pena. "Temos ainda a dificuldade de mobilizar o segmento. As pessoas ainda ficam um pouco receosas de participar, de sofrer alguma discriminação. Então, sempre tentamos mobilizar essa turma para que apareçam", explica, reforçando que o carnaval é espaço das PCDs também.

Francisco Boing Marinucci, de 22 anos, que tem Transtorno do Espectro Autista (TEA), não falta aos encontros anuais. Sua mãe, a professora Raquel Boing Marinucci, o leva por ele gostar de músicas e conhecer marchinhas e sambas. Em 2026, suas fantasias homenageiam personagens do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato. "A mãe me adora, me ama de paixão. A mãe é minha companhia", diz Francisco sobre os quatro dias de folia. Para Raquel, o bloco é inclusivo e mais seguro: "Quando as pessoas com deficiência intelectual são pequenas, há mais compreensão. Mas para um jovem ou adulto com deficiência intelectual não há inclusão de verdade. Por isso, não é possível deixá-lo sair sozinho".

Segundo o IBGE, o Brasil tem 18,6 milhões de pessoas com deficiência com 2 anos ou mais, representando 8,9% da população nessa faixa etária. A deficiência visual é a mais comum (3,1%), realidade vivida pelo auxiliar de biblioteca Thiago Vieira, que tem baixa visão desde o nascimento e neste carnaval foi acompanhado pela cão-guia Nina. "No ano inteiro, a gente é bastante esquecido. Este bloco é um começo, me sinto seguro aqui. Quem sabe a sociedade se conscientiza para abrir mais lugares acessíveis para a gente?", reflete.

Carlos Augusto Lopes de Sousa, secretário escolar do Recanto das Emas (DF), é outro frequentador assíduo. Cadeirante há 37 anos após fratura na coluna por desabamento, ele chegou ao centro de Brasília para aproveitar a segunda-feira de carnaval. "Isso se chama inclusão e respeito", define. Carlos mostra-se otimista com pesquisas da professora doutora Tatiana Coelho de Sampaio (UFRJ), que desenvolveu composto polilaminina com resultados promissores na regeneração de lesões medulares. "Ela é incrível! Heroína nacional", celebra, enquanto aguarda autorização da Anvisa para estudos clínicos mais amplos.

O bloco Deficiente é a mãe se consolida assim não apenas como festa, mas como movimento político que desafia estruturas excludentes, celebrando a diversidade enquanto exige que a sociedade cumpra seu papel na garantia de direitos fundamentais. Em meio a marchinhas e fantasias, constrói-se um carnaval onde a alegria e a luta por acessibilidade caminham juntas.