Em novembro de 2025, o Banco Central (BC) decretou a liquidação do Banco Master, seguida pela gestora Reag Investimentos, revelando um dos episódios mais graves da história do sistema financeiro brasileiro. O caso, que envolve suspeitas de fraudes bilionárias, uso de fundos de investimento para ocultar prejuízos e tentativas de socorro via banco público, expôs falhas de fiscalização e gerou tensões entre o Supremo Tribunal Federal (STF), o Tribunal de Contas da União (TCU), o BC e a Polícia Federal (PF).
Controlado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, o Master cresceu rapidamente ao oferecer Certificados de Depósitos Bancários (CDB) com rentabilidade muito acima da média do mercado. Para sustentar esse modelo, segundo investigadores, o banco passou a assumir riscos excessivos e a estruturar operações que inflavam artificialmente seu balanço, enquanto a liquidez real – o dinheiro imediatamente disponível para ressarcir os investidores – se deteriorava.
Como funcionava o esquema financeiro
Entre 2023 e 2024, o Master teria desviado cerca de R$ 11,5 bilhões por meio de triangulações. O banco emprestava recursos a empresas supostamente laranja, que aplicavam o dinheiro em fundos da gestora Reag Investimentos. Esses fundos compravam ativos de baixo ou nenhum valor real, como certificados do extinto Banco Estadual de Santa Catarina (Besc), por preços inflados. O BC identificou seis fundos da Reag suspeitos, com patrimônio conjunto de R$ 102,4 bilhões. O dinheiro circulava entre fundos ligados aos mesmos intermediários até chegar aos beneficiários finais.
Esquema de pirâmide e colapso
Para adiar a inadimplência, o banco concedia empréstimos com carência de até cinco anos. Novos CDBs eram usados para pagar investidores antigos, caracterizando um esquema Ponzi, ou pirâmide financeira. O Master chegou a oferecer CDBs de até 140% da taxa do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), nível considerado insustentável. Com as primeiras suspeitas sobre a credibilidade do banco em 2024, a captação secou e o caixa entrou em colapso.
Tentativa de venda ao BRB e intervenção
Em busca de liquidez, o Master simulou a compra de uma carteira de crédito de R$ 6 bilhões da empresa Tirreno, uma operação que existia apenas contabilmente, sem pagamento ou crédito real. O BC analisou os CPFs da carteira e concluiu que as operações não existiam. A mesma carteira foi revendida ao Banco de Brasília (BRB) por R$ 12 bilhões após manipulação da taxa de juros. Em setembro, o BC barrou a tentativa de venda de parte do Banco Master ao BRB. Segundo a investigação, a proposta buscava fundir balanços e diluir a fraude em um banco público.
O BC limitou a captação do Master a 100% do CDI, paralisando o crescimento. Desde abril de 2025, o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) passou a cobrir CDBs vencidos por meio de linha emergencial. O controlador tentou aportar recursos com a venda de ativos pessoais, sem sucesso. O banco foi liquidado quando não conseguia pagar nem 15% dos vencimentos semanais.
Papel da Reag Investimentos
Os fundos administrados pela Reag aparecem como peça central na sustentação do esquema. A gestora é suspeita de facilitar a constituição de empresas laranja para emprestar a fundos, que são investigados por supostamente terem valorizado ativos fictícios e pulverizado recursos. A posterior liquidação da gestora pelo BC é vista como desdobramento direto do caso Master. Após a segunda fase da Operação Compliance Zero, o BC decretou a liquidação da Reag Investimentos.
Tensões entre órgãos públicos
Embora concentre apenas 0,5% dos ativos do sistema financeiro, a liquidação do Master desencadeou tensões entre órgãos públicos. A medida gerou questionamentos simultâneos no STF, TCU e no Congresso sobre decisões técnicas do BC. O BC chegou a acordo com o TCU para inspeção de documentos, desde que não comprometam sigilo bancário e prerrogativas da autoridade monetária.
O ministro Dias Toffoli, do STF, que assumiu ações judiciais relacionadas ao Master, tentou fazer uma acareação que incluiria o diretor de Fiscalização do BC, mas desistiu e mandou a PF colher apenas depoimentos adicionais de Vorcaro e do ex-presidente do BRB. Após determinar que todo o material apreendido pela PF na Operação Compliance Zero ficasse custodiado no STF, Toffoli autorizou a análise pela Polícia Federal, com apoio da Procuradoria-Geral da República (PGR).
Impacto para os clientes
Com a liquidação do Master, cabe ao FGC, fundo formado por recursos dos bancos, ressarcir cerca de 1,6 milhão de clientes. O FGC estima desembolsar cerca de R$ 41 bilhões, cerca de um terço do patrimônio do fundo. Esse valor é o maior resgate da história do FGC, limitado a R$ 250 mil por CPF ou CNPJ. O pagamento depende da consolidação da lista de credores pelo liquidante, o que ainda não foi feito dois meses após a liquidação.
Os fundos da Reag não têm proteção do FGC, mas os cotistas podem escolher outra gestora para administrar os recursos. Dezoito fundos de pensões estaduais e municipais que investiram R$ 1,86 bilhão em fundos do Master e em Letras Financeiras não serão ressarcidos porque esses investimentos não são cobertos pelo FGC.
Por que o caso é histórico?
O episódio expôs falhas de fiscalização, uso indevido de fundos e pressão nas instituições. O escândalo levanta dúvidas sobre auditorias e agências de rating, que atestavam a saúde financeira do Master, e sobre os limites da supervisão financeira. O caso deve tornar-se referência para mudanças regulatórias e para o debate sobre governança no mercado financeiro, marcando um capítulo sombrio na história econômica recente do Brasil.

