Nas águas cristalinas de Arraial do Cabo, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, um grupo de pesquisadores mergulhadores realiza um trabalho minucioso: o censo do fundo do mar. A uma profundidade de 7 a 8 metros, eles delimitam uma área de 20 metros e anotam quantidades e espécies de peixes, em uma atividade que acontece a cada seis meses nesta região e anualmente em Angra dos Reis.

O trabalho faz parte do Projeto Costão Rochoso, uma iniciativa da ONG Fundação Educacional Ciência e Desenvolvimento em parceria com a Petrobras. Os costões rochosos são ecossistemas de transição entre mar e continente, formados por pedras e paredões que servem de abrigo e alimentação para vida marinha, aves e seres da entremarés.

"A gente tem pelo menos 200 espécies de peixes. Todas as cinco espécies de tartarugas marinhas que ocorrem no Brasil passam aqui um tempo. Além disso, a gente tem diversas espécies de aves, de algas, uma infinidade", descreve a bióloga marinha Juliana Fonseca, cofundadora do projeto. Ela explica que a rica biodiversidade de Arraial do Cabo - um hotspot ambiental - se deve à posição geográfica: o município fica em um "cotovelo" do litoral brasileiro, onde se encontram águas frias do sul do Atlântico e águas quentes do Nordeste.

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O mergulhador e biólogo Marcos de Lucena ressalta que essa característica torna o mar de Arraial do Cabo mais biodiverso que o litoral nordestino: "Tem uma riqueza muito maior que Fernando de Noronha", compara.

O monitoramento acontece na Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo, uma área protegida onde só é permitido mergulho científico com licença do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). "É uma área que não tem turismo. Só tem mergulho para pesquisa, de quem tem licença", detalha Juliana Fonseca.

Além de peixes, o projeto monitora corais, lulas, polvos e tartarugas. O biólogo marinho Moysés Cavichioli Barbosa, coordenador-geral do projeto, alerta para a presença de animais ameaçados: "Em termos de animais ameaçados, a gente tem muita garoupa, mero, badejo, budiões, raias e tartarugas. Dentro das espécies que a gente trabalha, deve ter pelo menos umas 15 espécies com algum tipo de nível de ameaça".

Os dados coletados servem para embasar decisões de manejo ambiental. Barbosa explica que o projeto mantém articulação com órgãos gestores como o ICMBio: "Tem algumas espécies que o ideal mesmo é ter uma moratória, por exemplo, não pode pescar por dois anos", exemplifica em relação ao budião, espécie que apresenta reversão sexual onde o maior indivíduo se torna macho.

O projeto também estuda os impactos das mudanças climáticas. A bióloga marinha Isis Viana, que acompanha a situação nas entremarés, nota que mudanças de temperatura têm sido mais constantes: "Tem dias que a temperatura sobe muito, tem dias que baixa muito. Isso afeta essas formas de vida e podem não resistir ao calor".

Em uma reserva extrativista, o uso da natureza deve ser sustentável, protegendo tanto o meio ambiente quanto os meios de vida das populações tradicionais. O agente de gestão socioambiental Weslley Almeida, do ICMBio, aponta que muitas decisões de gestão precisam de embasamento científico: "Essa parceria com o Projeto Costão Rochoso vem para subsidiar essas questões".

O pescador José Antônio Freitas Batista, que atua há 49 anos na região, defende a reserva extrativista: "Se a gente não tivesse essa preservação, acho que nem o turismo a gente teria, porque o turismo veio como complemento de renda para a gente não atacar diretamente a pesca com todo o vapor e acabar com os peixes".

Além da pesquisa científica, o projeto desenvolve trabalho educativo com a comunidade local. O cientista do mar Yago Ferreira, que atua nessa interlocução, defende que "a gente não consegue conhecer o que não entende e não entende o que está longe", por isso a necessidade da aproximação com a sociedade.

A parceria com a Petrobras, iniciada em 2023, foi renovada em 2026 por mais quatro anos, com investimento de R$ 6 milhões. Ana Marcela Bergamasco, gerente de projetos na área de responsabilidade social da empresa, ressalta que as parcerias precisam aliar interesses ambientais e sociais: "Tem que trabalhar com a questão social, turismo de base comunitária, com a comunidade e a pesca, mas de uma maneira sustentável".

Enquanto isso, nas profundezas do mar de Arraial do Cabo, o censo continua - um mergulho de cada vez, contando e identificando a vida que pulsa nos costões rochosos, garantindo que as próximas gerações possam conhecer essa riqueza natural.