Um relatório abrangente da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), divulgado nesta terça-feira (21) em Paris, trouxe um alerta e uma mensagem de esperança: as áreas protegidas sob sua chancela são pilares fundamentais para a preservação da biodiversidade e do clima no planeta, com contribuições diretas para as populações humanas. O documento, intitulado People and Nature in Unesco Sites: Global and Local Contributions (Comunidades e natureza nos Sítios da Unesco: contribuições locais e globais), analisa pela primeira vez de forma integrada todas as suas categorias de proteção – Sítios do Patrimônio Mundial, Reservas da Biosfera e Geoparques Mundiais.

No Brasil, essa rede inclui joias naturais como o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, recentemente incluído na lista do Patrimônio Mundial durante a 46ª sessão do Comitê em Nova Delhi, em julho de 2024, e o icônico Parque Nacional do Iguaçu, patrimônio desde 1986. Segundo a Unesco, a área dos Lençóis Maranhenses é de "rica biodiversidade, incluindo mais de 2000 espécies de plantas, 400 espécies de aves e possivelmente até 80 mamíferos, bem como inúmeras espécies de invertebrados". O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima detalha que o parque abriga quatro espécies ameaçadas: o guará, a lontra-neotropical, o gato-do-mato e o peixe-boi-marinho.

O estudo revela um contraste marcante: enquanto as populações de animais selvagens diminuíram 73% globalmente desde 1970, aquelas que vivem dentro das áreas protegidas pela Unesco se mantiveram comparativamente estáveis. Esses mais de 2.260 sítios, que somam uma área superior a 13 milhões de km² (maior que China e Índia juntas), são verdadeiros bastiões da vida. Eles abrigam mais de 60% das espécies mapeadas no mundo, sendo que cerca de 40% são endêmicas, ou seja, não existem em nenhum outro lugar. Além disso, armazenam cerca de 240 gigatoneladas de carbono, equivalente a quase duas décadas das emissões globais atuais.

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Para o diretor-geral da Unesco, Khaled El-Enany, os dados são um testemunho do impacto positivo desses territórios. "Nesses territórios, as comunidades prosperam, o patrimônio da humanidade perdura e a biodiversidade é preservada, enquanto se degrada em outros locais", afirmou. Ele emitiu um "chamado urgente para ampliar o grau de ambição e reconhecer os sítios da Unesco como ativos estratégicos para enfrentar a mudança do clima e a perda de biodiversidade".

No entanto, o relatório também soa um alarme. Apesar de sua importância colossal, quase 90% dos sítios enfrentam pressões ambientais elevadas. Os riscos relacionados ao clima aumentaram 40% na última década, e mais de um em cada quatro locais pode atingir pontos de ruptura irreversíveis até 2050, com cenários como desaparecimento de geleiras e colapso de recifes de coral. A conexão com as comunidades humanas é profunda: essas áreas abrigam cerca de 900 milhões de pessoas (10% da população mundial) e em pelo menos 25% delas estão presentes terras de povos indígenas, percentual que sobe para quase 50% na África, Caribe e América Latina. Estima-se que 10% do PIB global seja produzido nessas regiões e suas adjacências.

A Unesco aponta um caminho para reverter os riscos, baseado em quatro pilares: restaurar ecossistemas para reconstruir resiliência; promover desenvolvimento sustentável com cooperação transfronteiriça; integrar os sítios aos planos climáticos nacionais (hoje apenas 5% o fazem); e adotar uma governança mais inclusiva com povos indígenas e comunidades locais. O documento conclui com uma mensagem clara: "Investir na sua proteção hoje significa salvaguardar, para as gerações futuras, ecossistemas insubstituíveis, culturas vivas e os meios de subsistência de centenas de milhões de pessoas".