A tensão no campo rondoniense chegou a um trágico desfecho na última quinta-feira (20), quando dois irmãos sem-terra foram mortos durante operação policial em Machadinho do Oeste. Alex Santos Santana e Alessandro Santos Santana perderam a vida após confronto com policiais do Batalhão de Choque da Polícia Militar de Rondônia, durante a reintegração de posse de quatro fazendas do grupo Nelore Di Genio.
Segundo a versão oficial da PM, os irmãos foram baleados após trocarem tiros com os agentes que patrulhavam uma área já desocupada. Os policiais relataram que o veículo onde estavam os irmãos desobedeceu à ordem de parada e seus ocupantes teriam disparado contra as guarnições, configurando, de acordo com a corporação, "um grave risco à coletividade e à ordem pública". A PM afirma ter apreendido duas armas de fogo e munição no local.
Porém, fontes ligadas à Comissão Pastoral da Terra (CPT) apresentam uma narrativa completamente diferente. Josep Iborra, conhecido como Zezinho, assessor agrário da CPT, descreve a operação como uma "caçada humana" contra os sem-terra. Ele nega que tenha havido troca de tiros e afirma que os irmãos foram mortos em circunstâncias que precisam ser esclarecidas.
O caso ocorre no contexto da desocupação de quatro fazendas - Maruins, Santa Maria, São Miguel e São Vicente - que integram o espólio do empresário João Carlos Di Genio, fundador do grupo educacional Unip/Objetivo. As propriedades são alvo de disputa judicial há meses, com os sem-terra argumentando que se tratam de terras públicas griladas, enquanto o grupo Di Genio defende a legalidade da posse.
Um aspecto que preocupa organizações de direitos humanos é a ausência da perícia criminal no local do crime. A PM admitiu que, embora acionada, a perícia não pôde comparecer "devido à distância e ao histórico de conflitos na região", o que, segundo a CPT, compromete a apuração dos fatos.
Zezinho destaca que as 440 famílias já haviam desocupado pacificamente as fazendas, mas muitas continuam nas imediações, "dispersas, escondidas no mato, sem ter para onde ir". Ele critica a forma como a desocupação foi conduzida, sem a apresentação de um Plano de Desocupação, conforme determina o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para casos de ações possessórias coletivas.
Os advogados do Grupo Di Genio, por sua vez, argumentam que as invasões às fazendas vêm ocorrendo desde pelo menos o ano passado, causando danos à propriedade. Eles alegam que os sem-terra estariam desmatando a vegetação nativa, extraindo madeira ilegalmente e loteando a propriedade.
A CPT já acionou diversos órgãos, incluindo o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, a Ouvidoria Agrária Nacional e os Ministérios Públicos estadual e federal, para acompanhar a situação. O caso reacende o debate sobre a reforma agrária no Brasil e os métodos utilizados em reintegrações de posse, especialmente em um momento em que o país ainda responde por condenação na Corte Interamericana por omissão na morte de sem-terra.
Enquanto a PM garante que o Batalhão de Choque permanecerá na região para "restabelecer a ordem e a paz social", as famílias sem-terra seguem em situação de vulnerabilidade, aguardando uma solução para o conflito que já custou duas vidas.

