No coração da Avenida Presidente Vargas, uma das principais vias do centro do Rio de Janeiro, o monumento em homenagem ao líder negro Zumbi dos Palmares amanheceu cercado por manifestações populares nesta quinta-feira (20). Música, dança e discursos marcaram as celebrações do Dia da Consciência Negra, transformando o local tradicional em um espaço de resistência e afirmação cultural.
Entre as atrações que animavam o espaço, um enorme buffet chamava a atenção dos participantes. A estrutura comercial era uma expressão prática do que a empreendedora Carol Paixão define como "economia preta". O conceito, também conhecido como black money, representa um movimento socioeconômico que busca fazer o capital circular dentro da comunidade negra.
"É uma economia que bebe da africanidade", explicou Carol à Agência Brasil, enquanto servia pratos da África do Sul e Moçambique, além da tradicional feijoada brasileira. "A gente está falando de uma economia que visa à população preta, que visa empregar mais pessoas pretas", completou a responsável pelo Império Kush, estabelecimento no centro do Rio que faz referência a um antigo império africano.
Carol enfatizou que o conceito vai além do consumo e se estende às relações comerciais: "Quando a gente fecha parceria de prestação de serviço, a gente também visa que sejam todos pretos". A abordagem ganha relevância diante dos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mostram que pessoas pretas e pardas vivenciam mais o desemprego do que as brancas, além de receberem salários menores e trabalharem mais na informalidade.
À frente do busto gigante de Zumbi, o presidente do Conselho Estadual dos Direitos do Negro (Cedine), Luiz Eduardo Oliveira, conhecido como Negrogun, destacou o significado da presença anual no monumento. "Nós temos que ter reparação já", declarou à Agência Brasil, em referência aos danos causados por mais de 300 anos de escravidão negra no país.
A necessidade de reparação também ecoa nas comunidades quilombolas. De acordo com o Censo do IBGE de 2022, o Brasil possui 1,3 milhão de quilombolas, correspondendo a 0,65% da população, sendo que oito em cada dez vivem com saneamento básico precário.
A presidente da Associação Estadual das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro (Acquilerj), Bia Nunes, enfatizou o papel histórico dessas comunidades. "As comunidades quilombolas são referência de resistência dentro desse país. São homens e mulheres que vêm, desde a sua geração, da sua ancestralidade, resistindo dentro dos seus territórios, morrendo pelo território, mas sustentando e os protegendo", afirmou.
Bia Nunes, que representa 54 comunidades quilombolas fluminenses, completou: "Se não fosse a população originária e a população quilombola, nós não teríamos a biodiversidade que temos nesse país. É isso que representam os territórios quilombolas no Brasil".
O escritor, filósofo e ativista Gê Coelho trouxe uma perspectiva contemporânea sobre a resistência, estabelecendo paralelos entre os quilombos históricos e as favelas atuais. "As favelas, na verdade, são uma luta contra a opressão do Estado às pessoas mais pobres, mais humildes, mais periféricas", analisou o autor do livro "Favelismo: A revolução que vem das favelas".
Gê Coelho contextualizou que o monumento de Zumbi fica a cerca de 600 metros do Morro da Providência, considerada a primeira favela do Brasil, surgida no final do século 19. Para ele, atualmente a resistência acontece por meio de "disputas no campo das ideias", defendendo a criação de universidades dentro de favelas brasileiras.
"A maioria das pessoas que vão falar sobre nós vão contar uma história que não é a nossa história, que não é a nossa realidade", criticou. "A gente precisa ter uma universidade, não é contando a história a partir deles, e sim a partir de nós, do nosso conhecimento".
Os números do IBGE reforçam a importância dessa discussão: pretos e pardos são 55,5% da população do país, mas formam 72,9% dos moradores de favelas.
O deputado federal Reimont (PT-MG), presidente da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara dos Deputados, participou do evento e defendeu que "a luta do negro não é só do negro". "É claro que o negro tem o espaço de fala do racismo que sofre, mas nós, os brancos, que compreendemos que essa terra é de todo mundo, temos que ser solidários na luta e colocarmo-nos à disposição para fazer essa luta, para que a humanidade aconteça", afirmou.
O dia de celebração também serviu para a coordenadora do Comitê Estadual da Segunda Marcha Nacional das Mulheres Negra, Rose Cipriano, convidar para a manifestação popular que será realizada em Brasília na próxima terça-feira (25). "A gente sabe que até hoje a população negra sofre os impactos do racismo, as mulheres em especial. A gente sabe dos índices de violência, da pouca representatividade e que hoje, século 21, a gente ainda está chegando pela primeira vez a alguns lugares", constatou.
Rose Cipriano citou a ativista negra americana Angela Davis para reforçar seu chamado: "Angela Davis já diz, 'mulheres negras movimentam a estrutura da sociedade', é por isso que vamos para a marcha por reparação e bem-viver". A primeira edição do movimento ocorreu em 2015, também na capital federal, e são esperadas 1 milhão de pessoas na próxima semana.
As ruas que cercam o monumento de Zumbi foram tomadas pelo cortejo de Tia Ciata, homenageando a negra baiana considerada a matriarca do samba. Milhares de pessoas - de baianas carnavalescas a crianças de escolas de samba - formavam a manifestação cultural repleta de referências à cultura afrodescendente, com mistura de batuques como samba, maracatu, afoxé e bateria de escola de samba. O prefeito do Rio, Eduardo Paes, acompanhou a celebração.
O cônsul-geral de Angola no Rio de Janeiro, Mateus de Sá Miranda Neto, deu tom internacional à celebração, lembrando que novembro também é representativo para Angola, nação africana de origem de muitos negros escravizados que vieram para o Brasil. "Novembro para nós é um mês muito importante. É o mês que resultou a grande luta que tivemos de travar contra o colonialismo, luta que nos conduziu ao 11 de novembro de 1975, a nossa independência", afirmou, reforçando os laços históricos entre os dois países que foram colonizados por Portugal.

