A frase "Somos herdeiros de uma luta histórica", dita pela intelectual negra Luiza Bairros, ecoa com força renovada na exposição Luiza Bairros: Lentes e Voz, inaugurada nesta segunda-feira (24) na Fundação Palmares, em Brasília. A mostra, que revisita a trajetória da ativista falecida em 2016, chega em um momento simbólico: um dia antes da segunda Marcha Nacional das Mulheres Negras, da qual Luiza foi uma das maiores articuladoras.

Segundo a curadora Martha Rosa, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, "a mostra nasce como uma 'feminagem'", um termo que combina feminismo e homenagem. Ela explica que a exposição traça um panorama da vida e obra de Luiza Bairros por meio de registros de sua atuação no movimento negro, cronologia de sua vida, fotos, destaque em políticas públicas e sua passagem por instituições de movimentos sociais. "É simbólico que a mostra seja lançada na véspera da Marcha", afirma Martha, lembrando que Luiza sempre foi uma referência central do feminismo negro.

Os visitantes poderão conhecer detalhes da atuação de Luiza Bairros como ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial entre 2011 e 2014, além de peças produzidas por artistas plásticas de diferentes cidades do Brasil, que expressam suas visões sobre a homenageada. A sobrinha de Luiza, Fernanda Bairros, presente na inauguração, emocionou-se ao declarar que não é apenas sobrinha da intelectual, mas "fruto do projeto político construído" por ela. "Ela dedicou a vida inteira para a causa de combate ao racismo e ao sexismo", lembrou Fernanda.

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O presidente da Fundação Palmares, João Jorge, ressaltou o legado deixado por Luiza e sua influência na política institucional. "Todas as mulheres que estão na política hoje são descendentes da Luiza Bairros, de Lélia Gonzales, de Beatriz Nascimento, todas que vieram antes", afirmou. A ministra da Cultura, Margareth Menezes, que conheceu Luiza durante sua atuação na Fundação Palmares, destacou a importância da exposição para as novas gerações. "Fazer esse movimento um dia antes da Marcha das Mulheres Negras é um ponto de força muito importante", completou.

A amizade e a saudade marcaram o discurso da filósofa Sueli Carneiro, amiga de longa data de Luiza. "Nós estamos aqui porque amávamos e amamos Luiza, seu legado e sua história. Sinto falta da minha amiga, sinto falta da inteligência, sinto falta da companheira", declarou Sueli, em referência aos tempos difíceis que o país atravessa. Ela agradeceu a curadoria de Martha Rosa e enfatizou que a exposição não é apenas uma rememoração, mas uma forma de manter vivo o legado, a inteligência, a bravura e a coragem de Luiza.

Martha Rosa finalizou com um chamado à continuidade da luta: "Que essa exposição seja um canal para que essa luta histórica, travada por Luiza e por cada um de nós que estamos aqui, chegue a mais e mais brasileiros, de todas as raças e etnias, de todo território nacional. Como Luiza dizia, e nós defendemos, a gente não tem um projeto do movimento negro para o negro. A gente tem um projeto negro para o Brasil". A exposição permanecerá na Fundação Palmares como um testemunho vivo do compromisso de Luiza Bairros com a igualdade racial e a justiça social.