Pesquisadoras da Universidade Federal Fluminense (UFF) desenvolveram uma ferramenta pedagógica inovadora para discutir um tema crucial, porém frequentemente invisibilizado: o trabalho de cuidado realizado majoritariamente por mulheres e seu impacto na vida urbana. O Jogo do Cuidado – Um Jogo sobre o Direito à Cidade das Mulheres está disponível para download gratuito e se propõe a ser material de apoio para estudantes do ensino médio, promovendo reflexões sobre desigualdades sociais através de uma experiência lúdica.
A iniciativa nasceu de um projeto de pesquisa coordenado pela professora Rossana Brandão Tavares, que investiga direito à cidade e reprodução social. O trabalho analisa como fatores como renda, gênero, raça e idade moldam o acesso a oportunidades e à qualidade de vida nos centros urbanos. Segundo dados que embasam a pesquisa, cerca de 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres, um dado que ilustra a dimensão do fenômeno abordado.
Beatriz Corbacho, uma das bolsistas de iniciação científica do grupo, revela que a motivação para criar o jogo veio do tema da redação do Enem de 2023, que tratava justamente da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado por mulheres no país. "A gente se sentiu muito motivada a criar uma ferramenta pedagógica para que isso pudesse ser debatido dentro de sala de aula, algo lúdico, algo que pudesse ilustrar o que a gente estuda na pesquisa. Que é a vida feminina dentro do direito à cidade", explicou ela em entrevista ao programa Nacional Jovem, da Rádio Nacional da Amazônia e Rádio Nacional do Alto Solimões.
Na dinâmica do jogo, os participantes assumem papéis de personagens que representam diferentes grupos sociais. Ao longo da partida, eles enfrentam desafios relacionados ao trabalho, à renda e às responsabilidades de cuidado, permitindo que vivenciem, na prática, como essas questões impactam de maneira desigual a trajetória de cada um. O tabuleiro traz uma cartografia da área portuária do Rio de Janeiro, com dez bairros e dez personagens distribuídos conforme realidades econômicas distintas.
Mariana Pio, também bolsista da pesquisa, detalha a mecânica: "O nosso jogo tem duas formas de cédula de nota, que é o dinheiro do cuidado e o dinheiro do capital econômico. Sendo que o do cuidado é a principal moeda do jogo, onde quem tiver mais capital do cuidado ganha". Essa estrutura busca valorizar simbolicamente o trabalho de cuidado, frequentemente não remunerado ou subvalorizado no mercado.
O jogo aborda questões como rotina, mobilidade urbana, direitos coletivos e acessibilidade, utilizando personagens de diferentes raças, gêneros e classes econômicas para demonstrar como indivíduos diversos experienciam o mesmo espaço social de maneiras radicalmente diferentes. A professora Rossana Brandão Tavares destacou, em entrevista à Radioagência Nacional, que a repercussão positiva levou a equipe a disponibilizar o jogo online. "A gente conseguiu imprimir poucas versões físicas do jogo e por essa razão, em função da repercussão, a gente acabou produzindo uma página eletrônica que é no www.jogodocuidado.com.br, onde qualquer um, qualquer instituição, qualquer escola, qualquer grupo, qualquer pessoa que tiver interessada pode imprimir em casa ou numa copiadora uma versão adaptada", afirmou.
O projeto é vinculado à Escola de Arquitetura e Urbanismo e ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFF, tendo sido desenvolvido com apoio do edital do programa Jovem Cientista do Nosso Estado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). Inicialmente concebido para escolas do estado do Rio de Janeiro, o sucesso da iniciativa ampliou seu alcance, tornando-o acessível a qualquer interessado em todo o país através da internet. Além do tabuleiro, o material inclui um manual completo com orientações pedagógicas e sugestões de discussão para facilitar o uso em ambientes educacionais.

