O acesso ao crédito no Brasil segue como um dos principais desafios para a indústria nacional. Uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira (19) pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), com apoio da Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), revela que oito em cada dez empresas do setor enfrentaram dificuldades para obter financiamento. O levantamento, intitulado Sondagem Especial: Condições de Acesso ao Crédito em 2025, ouviu 1.789 indústrias entre 1º e 12 de agosto do ano passado, sendo 713 de pequeno porte, 637 de médio e 439 de grande porte.
Entre os empresários que tiveram problemas para acessar crédito de curto ou médio prazo (até cinco anos), um número expressivo de 80% apontou os juros elevados como o maior obstáculo. Em seguida, aparecem a exigência de garantias reais, como imóveis ou máquinas (32%), e a falta de linhas de crédito adequadas às necessidades das empresas (17%). O cenário se repete no financiamento de longo prazo, acima de cinco anos: 71% dos industriais atribuíram as dificuldades aos juros altos, enquanto 31% mencionaram a exigência de garantias e 17% a ausência de linhas compatíveis com seus projetos.
"A atual política monetária é bastante restritiva e encarece o crédito. Com a Selic em 15% ao ano e juros reais em torno de 10%, o financiamento fica mais caro e desestimula investimentos em expansão e inovação", explica Maria Virgínia Colusso, analista de Políticas e Indústria da CNI. A alta taxa básica de juros reduziu significativamente a busca por crédito: 54% das empresas não buscaram financiamento de longo prazo nos seis meses anteriores à pesquisa, e 49% não procuraram crédito de curto ou médio prazo no mesmo período.
Apenas 26% das indústrias contrataram ou renovaram crédito de curto prazo, enquanto no longo prazo o percentual cai para 17%. A dificuldade é ainda maior para quem tenta obter financiamento de longo prazo: quase um terço das empresas que buscaram esse tipo de crédito não teve sucesso. No crédito de curto ou médio prazo, cerca de 20% também não conseguiram. As médias empresas são as mais afetadas: 43% não obtiveram crédito de longo prazo, contra 37% das pequenas e 27% das grandes. No curto prazo, as médias também lideram com 26% de insucesso, seguidas por pequenas (21%) e grandes (16%).
A avaliação das condições de crédito também é negativa. Para 35% das empresas, as condições de financiamento de curto ou médio prazo pioraram, enquanto 33% fizeram a mesma avaliação para o longo prazo. Apenas 14% relataram melhora no curto ou médio prazo, e no longo prazo o índice cai para 12%. Para 47% dos entrevistados, as condições permaneceram semelhantes.
Outro dado que chama atenção é a baixa adesão ao risco sacado, modalidade de antecipação de recebíveis em que o fornecedor recebe o pagamento antecipado de uma instituição financeira, enquanto o comprador assume o compromisso de quitar o valor na data acordada. Apenas 13% das indústrias contrataram essa operação nos últimos 12 meses, e outros 5% pretendiam contratar. A maioria (54%) não contratou nem pretendia contratar, enquanto 29% não souberam ou preferiram não responder.
Os resultados da pesquisa reforçam as críticas do setor produtivo à cautela do Banco Central (BC) e à demora no início do ciclo de corte de juros, enquanto dados do IBGE mostram que a indústria mantém estabilidade desde abril de 2025. O cenário de crédito restrito contrasta com a necessidade de investimentos para retomada do crescimento econômico, colocando em xeque a capacidade de expansão e inovação do parque industrial brasileiro.

