No Brasil, os avanços obtidos por políticas públicas como as cotas raciais e a demarcação de territórios quilombolas contrastam fortemente com um cenário de recrudescimento da violência racial e movimentos que negam a existência do racismo. Em entrevistas concedidas à Agência Brasil para o Dia da Consciência Negra, ativistas do movimento negro afirmam que, embora a luta pela igualdade tenha progredido, a realidade ainda está longe de ser equitativa para a população negra.

Carmela Zigoni, assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), expressou ceticismo em relação aos motivos para comemoração no país. "São muitos os desafios ainda. A gente está longe de alcançar uma equidade racial de fato no Brasil, um país muito racista", disse ela, destacando que ideologias conservadoras têm fomentado práticas racistas mais diretas e violentas. Como exemplo, citou a invasão da escola Emei Antônio Bento, em São Paulo, onde policiais militares armados intervieram após um pai, também militar, reclamar que sua filha de 4 anos desenhou um orixá em uma atividade escolar. O caso, ocorrido em 12 de novembro, viola a Lei 10.639/2003, que obriga o ensino da história e cultura afro-brasileira, e foi amplamente repudiado.

Carmela atribuiu parte dos retrocessos à gestão do governo Bolsonaro, que, segundo ela, retirou a política de igualdade racial do plano de governo, mas elogiou a retomada dessas iniciativas pelo governo federal atual. "A reestruturação da política de igualdade racial em âmbito federal e, principalmente, do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir), bem como o retorno do orçamento para essa política pública, são os pontos positivos a serem destacados", afirmou, referindo-se a medidas como decretos de regularização fundiária para quilombolas.

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Lúcia Xavier, fundadora da ONG Criola - Pelos Direitos das Mulheres Negras, compartilhou uma visão semelhante, reconhecendo que a transição para um governo mais democrático melhorou o ambiente, mas não se traduziu em avanços concretos nos direitos da população negra. "Mas [isso] não pode ser entendido como avanço dos direitos, sobretudo da população negra, como igualdade racial ou mesmo pelas condições dos direitos das mulheres", explicou. Ela apontou contradições, como a existência de ações afirmativas na educação, mas a falta de oportunidades no mercado de trabalho, a violência policial desproporcional e as dificuldades de permanência nas universidades.

Alane Reis, coordenadora da Revista Afirmativa e ativista da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) e do Instituto Odara, enfatizou que é possível celebrar conquistas históricas, fruto de séculos de organização política negra. "Esses movimentos conseguiram, a partir de muita luta, conquistar algumas coisas, entre as quais as políticas afirmativas nas universidades e nos concursos públicos", disse, citando também a garantia constitucional de direitos para quilombolas, embora haja resistências na implementação. Para ela, essas vitórias ajudaram a desconstruir o mito da democracia racial, mesmo que grupos racistas ainda neguem as desigualdades.

Alane destacou a necessidade de políticas que incentivem oportunidades e acesso a direitos, especialmente para mulheres negras, que ocupam os piores indicadores sociais. "Nós somos a base da pirâmide e, nas estatísticas sobre acesso à renda, à educação, a direitos civis e políticos, nós somos a minoria. Somos 2% do Congresso Nacional e nunca existiu no Supremo Tribunal Federal (STF) uma mulher negra ocupando uma cadeira", ressaltou. No entanto, ela vê um avanço cultural significativo: a juventude negra hoje se orgulha mais de sua identidade, com crianças falando abertamente sobre sua cor, um contraste com décadas passadas.

Dados do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania reforçam a persistência do racismo: de janeiro a 16 de novembro de 2025, o Disque 100 registrou 13.813 denúncias relacionadas à igualdade racial, incluindo racismo, injúria racial e violência política e étnico-racial, com 26.901 violações. São Paulo lidera as denúncias, com 3.631 casos, seguido por Rio de Janeiro (1.898) e Minas Gerais (1.260). As mulheres são as principais vítimas, representando 51,51% das denúncias, enquanto os homens somam 38,64%, evidenciando a interseccionalidade do racismo e do sexismo na sociedade brasileira.