Uma mulher negra inflável de 14 metros, com faixa presidencial onde se lia "Mulheres Negras Decidem", tornou-se o símbolo da 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras por Reparação e Bem-Viver que levou aproximadamente 500 mil pessoas à Esplanada dos Ministérios em Brasília nesta quinta-feira (25). O evento marcou o ápice de centenas de caravanas que convergiram para a capital federal em um dos maiores atos políticos do ano.
Cláudia Vieira, representante do Comitê Nacional da Marcha das Mulheres Negras, destacou a importância histórica do momento. "Não foi fácil chegar até esse dia", afirmou, ressaltando que o movimento busca deixar um legado permanente. "A partir desse mosaico, a gente apresenta para o país, para o mundo e para o Estado brasileiro, para que entendam, de uma vez por todas, que é importante, necessário, é dever e direito olhar para a população negra".
A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, chegou ao evento acompanhada pelas deputadas federais Talíria Petrone (PSOL-RJ) e Benedita da Silva (PT-RJ) - esta última lembrada como a primeira mulher negra a se tornar deputada federal em 1987 e senadora em 1995. Do alto de um carro de som, Anielle Franco declarou que a presença do ministério representava "uma ponte entre movimento e Estado".
O ato teve momentos emocionantes quando a ministra lembrou da irmã, a vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018 junto com o motorista Anderson Gomes. O grito "Marielle, presente. Marielle vive" ecoou entre os participantes. Luyara Franco, filha de Marielle e diretora executiva do Instituto Marielle Franco, afirmou que "cada passo que damos aqui carrega a força de todas as mulheres negras que nos antecederam".
A violência contra corpos negros foi um dos temas centrais da marcha. Um tapete com fotos de vítimas da violência em favelas do Rio de Janeiro ocupou metros do chão da concentração. Daniela Augusto, do Movimento Mães de Maio na Baixada Santista, foi enfática: "Historicamente, no Brasil, a herança do processo de escravização é a perseguição, o controle e a eliminação de corpos negros". Ela denunciou o feminicídio como particularmente cruel contra mulheres negras, agravado pelo machismo estrutural.
Entre as reivindicações específicas, destacou-se a bandeira levada por participantes pedindo a indicação de uma mulher negra para a vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) deixada pela aposentadoria de Luís Roberto Barroso. A deputada Erika Kokay (PT-DF), que participou da primeira marcha em 2015, comparou o movimento a "lufada dos ventos dos quilombos".
Na área educacional, a professora Maria Edna Bezerra da Silva, da Universidade Federal de Alagoas, reivindicou o aumento da docência negra nas instituições de ensino superior. "Embora tenhamos avançado em uma política de cota para estudantes, para docentes, eles ainda são muito poucos dentro das universidades", afirmou.
A marcha também contou com participação masculina significativa. Leno Farias, de povoado de terreiro do Ceará, explicou sua presença: "Minha descendência é toda regida por mulheres. Então estar na marcha é uma coisa muito normal. Elas são as líderes". Ele atribuiu a violência contra mulheres ao "medo do poder que elas têm" por parte dos homens.
Centenas de mulheres quilombolas marcaram presença, reafirmando seu papel como guardiãs de território e biodiversidade. Aparecida Mendes, do território quilombola Conceição das Crioulas em Salgueiro (Pernambuco), foi categórica: "É importante a gente mostrar para o mundo a nossa presença, a nossa existência [...] Existimos, somos demandantes de direitos, também cuidadores desses territórios, da riqueza do Brasil".
O encerramento da marcha reforçou a organização das mulheres afro-brasileiras, afro-latinas e afro-caribenhas, que deixaram claro que suas pautas são "inegociáveis para a construção de um futuro mais justo e democrático". O movimento reafirmou a luta pela vida sem violência, pela igualdade plena de direitos e oportunidades, mostrando que as mulheres negras brasileiras continuam em marcha - agora com força e visibilidade ainda maiores.

