A Esplanada dos Ministérios em Brasília foi tomada por uma maré de cores, sons e movimentos nesta terça-feira (25) durante a 2ª Marcha das Mulheres Negras. O evento reuniu quase meio milhão de participantes vindas de todas as regiões do Brasil e de outros países, criando um dos maiores atos políticos e culturais do ano.

O chamado para 'meter marcha', expressão baiana que convida ao movimento e à dança, ecoou por toda a capital federal. A canção tema "Mete Marcha Negona Rumo ao Infinito", composta e interpretada pela cantora baiana Larissa Luz, embalou o canto coletivo da multidão, criando um momento de forte emoção e união.

Para muitas das participantes, a marcha representou um marco em suas trajetórias pessoais e profissionais. Flora Egécia, diretora de cinema, participou da primeira edição em 2015 logo após lançar seu primeiro curta-metragem. "Nesta época eu lembro que tinham várias diretoras negras em ascensão como eu, no mesmo período que eu, e hoje em dia eu vejo estas mulheres fazendo longas-metragens, tomando conta do mundo", relatou Flora, que marchou novamente acompanhada da mãe, a professora da Universidade de Brasília Dione Oliveira Moura.

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O cenário na Esplanada dos Ministérios era de pura celebração da cultura afro-brasileira. Rodas de capoeira, alas de sambistas, bailarinas e percussionistas coloriam o espaço. O tambor, símbolo poderoso da ancestralidade africana, era o elemento em comum entre as batuqueiras brasileiras e as 45 mulheres uruguaias que tocavam o Candombe, ritmo declarado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.

Ishina Pena Branca, dançarina e percussionista, carregava orgulhosamente seu xequerê durante a marcha. "A música me conecta com meu corpo. Todas as vezes que eu canto, que eu toco, eu sinto o coração de África, é como se eu sentisse o vibrar do coração dos meus ancestrais", explicou ela sobre a importância da arte em sua afirmação como mulher negra.

Naiara Leite, representante do comitê nacional da Marcha das Mulheres Negras, destacou o papel fundamental da arte na luta antirracista. "Nossa forma de fazer luta é também com arte, isso tem a ver com a nossa origem, nossa forma de fazer denúncia a partir de outras estratégias e outras ferramentas. A música é um espaço de acolher, de falar de amor, de se fortalecer, e falar de resistência".

O encerramento da marcha aconteceu na área externa do Museu Nacional com um show gratuito que reuniu grandes nomes da música brasileira, incluindo Célia Sampaio & Núbia, Ebony, Larissa Luz, Luana Hansen e Prethais. Para a cantora Prethais, a emoção foi ainda maior por ter vivenciado uma trajetória de transformação desde a primeira edição.

"Eu não imaginava que o que eu vivi com 17 anos, eu voltaria dez anos depois e faria parte da marcha no palco", emocionou-se a artista. "Em 2015, eu tinha acabado de chegar da Bahia para morar no DF, em um contexto de muita solidão, de busca pelo bem-viver. Eu não sabia quem eu era e esse movimento de mulheres negras me deu caminho. A Marcha me fez reconhecer como mulher quilombola, remanescente quilombola de Xique-Xique (BA), como mulher negra que move o mundo".

A 2ª Marcha das Mulheres Negras mostrou não apenas a força numérica do movimento, mas principalmente a potência criativa e transformadora das mulheres negras brasileiras. Dez anos após a primeira edição, o evento confirmou que a luta contra o racismo, o sexismo e todas as formas de opressão segue mais forte do que nunca, sempre acompanhada pela arte, pela cultura e pela celebração da ancestralidade africana.