O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, defendeu publicamente nesta terça-feira (17) a criação de um novo Plano Brasil Soberano para auxiliar exportadores brasileiros ainda prejudicados por tarifas comerciais dos Estados Unidos. A proposta, que Mercadante chama de "Brasil Soberano 2", visa ampliar o apoio a setores com déficit comercial, estratégicos para a economia nacional e afetados por reflexos de conflitos internacionais.
Durante a apresentação do balanço financeiro de 2025 do banco, na sede do BNDES no Rio de Janeiro, Mercadante explicou que, embora uma decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos tenha derrubado em fevereiro a política tarifária do ex-presidente Donald Trump, alguns setores específicos continuam enfrentando taxações elevadas. "Quando é para todos, não desequilibra a relação de comércio. O problema é quando você tem uma tarifa superior aos seus concorrentes", afirmou.
O presidente do banco citou a Seção 232, legislação americana que permite a imposição de tarifas por razões de segurança nacional, ainda vigente. Segundo ele, setores como siderurgia, alumínio e cobre enfrentam tarifas de até 50%, enquanto o setor automotivo e de autopeças sofre com taxações de 25%. "A nossa avaliação é que precisamos de um Brasil Soberano 2", sustentou Mercadante.
Lançado originalmente em agosto de 2025, o primeiro Plano Brasil Soberano foi um pacote de financiamento destinado a empresas exportadoras impactadas pelo "tarifaço" americano, que na época impôs tarifas de até 50% para produtos brasileiros vendidos aos Estados Unidos. De acordo com o balanço apresentado, em 2025 o BNDES financiou R$ 19,5 bilhões para 676 empresas através desse programa.
Mercadante informou que recursos do programa não foram integralmente utilizados, restando R$ 6 bilhões no caixa do BNDES. Isso indicaria, segundo ele, que não haveria custo extra para o orçamento público. "A gente pode devolver ao Tesouro Nacional [caixa do governo], e o Tesouro pode definir um novo programa. A gente não pode usar sem uma definição legal específica, então, precisa que o Congresso Nacional aprove. É um termo urgente e relevante que pode ser feito com Medida Provisória", assinalou.
O presidente do BNDES disse que já há conversas avançadas com o vice-presidente Geraldo Alckmin, que também é ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, e com o Ministério da Fazenda. A decisão final caberia ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Mas já tem um diálogo avançado", afirmou.
Mercadante defendeu que o novo plano também beneficie setores com saldo negativo no comércio exterior e setores estratégicos, como o de fertilizantes. Ele lembrou que os conflitos na Ucrânia e Rússia (iniciada em 2022) e no Irã (2026) envolvem países fabricantes de fertilizantes, o que exige maior resiliência do Brasil. "Precisamos ter mais resiliência para poder ter mais capacidade de resposta nesse cenário turbulento geopolítico que estamos atravessando", declarou.
Durante a coletiva, Mercadante também abordou a situação da Raízen, gigante de biocombustíveis que entrou em pedido de recuperação extrajudicial na última semana. Ele afirmou que o BNDES está empenhado em encontrar uma solução para a saúde financeira da empresa, lembrando que em janeiro de 2025 o banco aprovou financiamento de R$ 1 bilhão para produção de etanol. Segundo Mercadante, a dívida da Raízen com o BNDES tem garantias reais e não será incluída na renegociação, mas o banco busca participar de uma solução mais ampla.
Questionado sobre possível apoio financeiro a empresas que enfrentem dificuldades com o eventual fim da escala de trabalho 6x1 (seis dias trabalhados e um de folga), Mercadante disse que o banco está estudando o assunto, mas aguarda decisão do governo. A mudança está prevista na Proposta de Emenda Constitucional nº 8/2025, apresentada à Câmara dos Deputados em fevereiro do ano passado.

