A ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, fez um alerta contundente sobre o cenário global dos direitos humanos durante evento realizado na noite de segunda-feira (26) na capital paulista. Em discurso na Casa do Povo, no Bairro do Bom Retiro, a ministra afirmou que a Carta de Princípios dos Direitos Humanos foi "rifada" por grupos que detêm o poder em determinados países, usando uma expressão popular para criticar o que considera um abandono dos acordos internacionais.
"Nós estamos num momento da história do mundo em que aquele acordo da nossa carta de princípios dos direitos humanos foi, eu vou usar a palavra popular, rifado por grupos que hoje detêm a hegemonia no poder em determinados países", declarou Macaé Evaristo. A ministra destacou que conceitos fundamentais como democracia estão sendo distorcidos para servir a interesses de poder, em vez de garantir direitos e liberdades.
Segundo a ministra, há uma tentativa de substituir os pactos internacionais pela "lei do mais forte". "Acham que vamos esquecer tudo o que a gente combinou e pactuou até aqui, da necessidade de respeito à soberania, à autodeterminação dos povos, e vão impor a lei do mais forte", acrescentou durante seu discurso, que reuniu ativistas, representantes de movimentos sociais e membros da comunidade local.
O local escolhido para o evento carrega um simbolismo histórico profundo. A Casa do Povo foi construída pela comunidade judaica após a Segunda Guerra Mundial e inaugurada em 1953 em memória às vítimas do nazismo. Durante a ditadura militar brasileira, o espaço se tornou um importante centro de resistência e organização política, mantendo viva a memória das lutas por direitos e liberdades.
Durante a tarde que antecedeu o evento, Macaé Evaristo realizou uma visita a instituições da comunidade judaica sediadas no Bom Retiro. A agenda incluiu passagens pelo Memorial do Holocausto e pela instituição beneficente Ten Yad, seguida de uma caminhada pela região que, segundo relatos, é marcada por graves violações aos direitos humanos.
O diretor da Casa do Povo, Benjamin Seroussi, destacou a importância de discutir essas violações no contexto local. "Esse território é marcado por tantas violências, despejo das pessoas da Favela do Moinho, despejo do Teatro de Container, despejo de populações vulneráveis, ataque a pessoas em situação de rua", enumerou Seroussi, conectando a história de resistência do local com as lutas atuais.
Seroussi ainda fez um paralelo entre a memória judaica e outras formas de opressão contemporâneas. "É a nossa história judaica que nos traz até o momento presente. Não podemos discutir o antissemitismo sem discutir outras formas de opressões ainda mais agudas, infelizmente, no território onde vivemos", afirmou, ressaltando a necessidade de uma abordagem interseccional nas discussões sobre direitos humanos.
As declarações da ministra ocorrem em um contexto de preocupação crescente com a situação dos defensores de direitos humanos no Brasil e no mundo. Estudos recentes indicam que, apenas nos últimos dois anos, 55 defensores de direitos humanos foram mortos no país, segundo dados divulgados por organizações da sociedade civil. Esses números reforçam a urgência do debate sobre proteção a ativistas e garantia de espaços democráticos.
Macaé Evaristo tem se destacado em sua gestão pelo estímulo à participação de grupos historicamente marginalizados. Recentemente, a ministra vem incentivando mulheres a disputar espaço em todos os lugares, desde a política até o mercado de trabalho, como parte de uma estratégia mais ampla de promoção da igualdade.
O evento na Casa do Povo representou mais um capítulo nessa trajetória de diálogo com movimentos sociais e comunidades vulneráveis. Ao escolher um local carregado de simbolismo histórico tanto para a memória do Holocausto quanto para a resistência à ditadura, a ministra reforçou a conexão entre passado e presente nas lutas por direitos humanos, alertando para os riscos de retrocessos em escala global.

