Sob fortes pancadas de chuva, a área central de Brasília foi palco, neste domingo (7), de um ato histórico contra a violência de gênero. O Levante Mulheres Vivas, convocado por dezenas de organizações da sociedade civil, reuniu seis ministras e um ministro do governo federal, além da primeira-dama Janja Lula da Silva, em uma manifestação que ecoou em diversas capitais do país. A mobilização ocorreu após uma sucessão de casos de feminicídios que chocaram a sociedade brasileira nas últimas semanas.

O evento contou com a presença de figuras-chave do governo, demonstrando a prioridade dada ao tema. Participaram as ministras Anielle Franco (Igualdade Racial), Márcia Lopes (Mulheres), Esther Dweck (Gestão), Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais), Sônia Guajajara (Povos Indígenas) e Luciana Santos (Ciência e Tecnologia). O único ministro presente foi Wellington Dias, do Desenvolvimento Social.

Em seus discursos, as autoridades destacaram a urgência do combate à violência contra a mulher e apresentaram propostas concretas. A ministra Márcia Lopes defendeu uma maior participação feminina na política, afirmando que as mulheres precisam ocupar 50% dos cargos políticos no Brasil. "Não vamos votar em homem que agrida, que ofenda as mulheres. Não vamos votar", declarou, em um chamado ao eleitorado feminino.

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Já a ministra Gleisi Hoffmann enfatizou que a luta é de toda a sociedade e requer a participação dos homens. "É muito importante ter os homens ao lado da gente nessa caminhada. Essa luta é de toda a sociedade. Temos que unir forças para tirar essa chaga da sociedade. Nós temos um problema histórico e cultural de subordinação das mulheres e temos que mudar isso", afirmou, destacando o caráter civilizatório da causa.

Um dos momentos mais emocionantes foi o discurso da ministra Anielle Franco, que lembrou a irmã, a vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018 no Rio de Janeiro. "Quando Marielle foi assassinada da maneira que foi, com cinco tiros na cabeça, logo depois a mãe Bernadete, poucos anos depois, com 21 tiros na cabeça, há um recado dado para essas mulheres. A gente tá aqui hoje pra dizer que vai permanecer viva, de pé, lutando, ocupando todos os espaços, eles queiram ou não. A gente vai permanecer", disse, em referência também à mãe de uma testemunha do caso, assassinada posteriormente.

Mesmo se recuperando de uma cirurgia, a ministra Sônia Guajajara participou do ato em uma cadeira de rodas e chamou atenção para a violência invisível contra as mulheres indígenas. "Essa violência que a gente vê hoje em redes sociais, em noticiários, nos territórios indígenas acontece igualmente e nem notícia vira. Elas continuam no anonimato e ainda nem estatística viraram", lamentou, destacando a falta de visibilidade e dados sobre o problema.

A ministra Luciana Santos lembrou que a luta das mulheres contra a violência é secular e defendeu políticas públicas amplas. "Isso é para que a gente possa ter a dimensão da batalha que tem pela frente. Por isso, a luta para que tenhamos salário igual para função igual, creches, direitos para que, nas universidades, as mulheres que sigam a carreira científica possam avançar sem nenhum tipo de empecilho", argumentou, conectando a violência física às desigualdades estruturais.

Em sua fala, a primeira-dama Janja Lula da Silva lamentou os feminicídios e pediu medidas mais duras contra o assassinato de mulheres. "Que hoje seja um dia que fique marcado na história desse movimento das mulheres pelo Brasil. A gente precisa de penas mais duras para o feminicídio. Não é possível um homem matar uma mulher e, uma semana depois, estar na rua para matar outra. Isso não pode acontecer", disse, defendendo uma resposta penal mais rigorosa.

A mobilização nacional foi convocada após uma onda de feminicídios recentes que abalaram o país. No final de novembro, Tainara Souza Santos teve as pernas mutiladas após ser atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro, enquanto ainda estava presa embaixo do veículo. O motorista, Douglas Alves da Silva, foi preso acusado do crime. Na mesma semana, duas funcionárias do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet-RJ), no Rio de Janeiro, foram mortas a tiros por um funcionário da instituição que se matou em seguida.

Na sexta-feira (5), foi encontrado, em Brasília, o corpo carbonizado da cabo do Exército Maria de Lourdes Freire Matos, 25 anos. O crime está sendo investigado como feminicídio após o soldado Kelvin Barros da Silva, 21 anos, ter confessado a autoria do assassinato. Esses casos somam-se a estatísticas alarmantes: cerca de 3,7 milhões de mulheres brasileiras viveram um ou mais episódios de violência doméstica nos últimos 12 meses, segundo o Mapa Nacional da Violência de Gênero.

Os números de feminicídio são igualmente preocupantes. Em 2024, 1.459 mulheres foram vítimas de feminicídios, uma média de cerca de quatro assassinatos por dia em razão do gênero. Em 2025, o Brasil já registrou mais de 1.180 feminicídios, indicando uma continuidade trágica do problema. O ato em Brasília, portanto, surge como um grito de alerta e uma demanda por ações efetivas do Estado e da sociedade para proteger a vida das mulheres.