Brasília se prepara para receber na próxima terça-feira (25) a Marcha Nacional das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, um movimento que reúne participantes de todo o país na capital federal. O evento marca uma continuidade da trajetória iniciada há dez anos, quando ocorreu a primeira edição histórica da marcha.
"Foi um marco histórico, considerando que foi a primeira marcha", afirma a jornalista e militante do movimento negro, Jacira Silva, sobre a edição pioneira de 2014. Naquele ano, aproximadamente 50 mil mulheres ocuparam a Esplanada dos Ministérios sob o tema "Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver".
Mas por que as mulheres negras continuam marchando após uma década? Segundo as organizadoras do evento, a mobilização permanece necessária para enfrentar o racismo e o sexismo que ainda marginalizam as mulheres negras no Brasil. Dados do Ministério da Igualdade Racial revelam que elas constituem o maior grupo populacional do país: são cerca de 11,3 milhões de mulheres pretas e 49,3 milhões de pardas, totalizando 28% da população brasileira.
Ser o grupo mais numeroso, no entanto, não significa proteção contra as violências estruturais. Historicamente, as mulheres negras acumulam os piores indicadores sociais. Em 2022, por exemplo, a taxa de analfabetismo entre mulheres negras era de 6,9%, o dobro da registrada entre mulheres brancas (3,4%).
As reivindicações da marcha incluem direitos dos povos tradicionais, preservação dos recursos naturais e da biodiversidade brasileira, reparação histórica pelos danos da escravização, garantia de direitos por parte do Estado e a construção de um modelo econômico sustentável que assegure o bem viver.
Em Brasília, espaços dedicados às mulheres negras estão há meses se preparando tanto para receber participantes de outros estados quanto para mobilizar as mulheres locais. Um exemplo é a Casa Akotirene Quilombo Urbano, localizada em Ceilândia Norte, a aproximadamente 30 quilômetros do centro da capital.
Joice Marques, presidente da Casa Akotirene, explica que o espaço - que atende cerca de 250 mulheres, crianças e adolescentes - não existia durante a primeira marcha. "Pra gente é uma imensa alegria marchar com as mulheres da Casa Akotirene com as mulheres de tantos lugares do Brasil e de fora do Brasil também. Pra gente é um momento histórico, que diz que, de certa forma, estamos falando a mesma língua", afirma.
Para Joice, que se define como uma continuidade dos sonhos de seus ancestrais, a participação das mulheres da comunidade tem um significado especial. "Essas mulheres podem não estar dentro da academia, pensando o movimento de mulheres negras nas instâncias formais, mas estão dentro do território delas. Também estão fazendo políticas de combate à violência, de combate ao racismo, com a sua comunidade, com a sua família".
Na Casa Akotirene, as mulheres participam de cursos de informática, costura, música, exercícios corporais e tranças, processos que frequentemente levam ao autorreconhecimento como mulheres negras. Joice reflete sobre essa experiência: "Eu sempre falo que, quando a gente está dentro da nossa casa, a gente é só uma pessoa, é só uma mulher. Quando a gente sai para rua, a gente já é uma mulher negra, então já tem uma subjetividade a mais para gente".
A educadora popular e produtora cultural, que nasceu no Piauí e cresceu nas periferias do Distrito Federal, destaca como o racismo se manifesta em múltiplas dimensões: "E aí a gente vive tudo isso no racismo econômico, no racismo geográfico, no racismo dentro do mercado de trabalho. No racismo que tenta deslegitimizar a gente todos os dias, dizer que a gente não é capaz, que a gente não é intelectual suficiente. E eu acho que isso faz com que a gente entenda o quanto o racismo, a estrutura, ela é perversa".
Na terça-feira, as mulheres da Casa Akotirene marcharão levando um estandarte coletivo que carrega os anseios e sonhos não apenas delas, mas de milhares de mulheres negras que estarão nas ruas de Brasília reivindicando reparação histórica e o direito ao bem viver.

