A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou nesta quarta-feira (25) uma resolução histórica que reconhece o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o crime mais grave contra a humanidade já cometido. O texto, apresentado pelo presidente de Gana, John Mahama, recebeu 123 votos a favor, incluindo o do Brasil, e estabelece que os Estados-Membros devem considerar apresentar desculpas formais e contribuir para um fundo de reparação.
Durante cerca de 400 anos, milhões de africanos foram sequestrados, vendidos como mercadorias e submetidos à escravidão em colônias de nações europeias, um crime que persistiu mesmo após a independência de países como Brasil e Estados Unidos. O Brasil, último país das Américas a abolir a escravidão em 1888, foi o principal destino dos africanos escravizados, tendo recebido mais de 4 milhões de pessoas.
Apenas três países votaram contra a resolução: Estados Unidos, Israel e Argentina. Houve 52 abstenções, a maioria de nações europeias que exploraram colônias africanas ou participaram do tráfico, como Portugal, Espanha, Reino Unido, França, Países Baixos e Bélgica. Outros países desenvolvidos como Japão, Canadá e Austrália também se abstiveram.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, defendeu o enfrentamento dos legados duradouros da escravidão, como desigualdade e racismo. "Precisamos remover as barreiras persistentes que impedem tantas pessoas de ascendência africana de exercer seus direitos e realizar seu potencial", discursou.
A presidente da Assembleia Geral, Annalena Baerbock, afirmou que enfrentar essas injustiças é um imperativo moral. "O tráfico de escravizados e a escravidão figuram entre as mais graves violações de direitos humanos na história da humanidade", disse ela, destacando que os princípios da ONU nasceram, em parte, dessas injustiças.
Já o representante dos Estados Unidos, Dan Negrea, classificou o texto como "altamente problemático" antes da votação, argumentando que o país não reconhece direito legal a reparações por injustiças históricas que não eram ilegais à época.
A resolução enfatiza que reivindicações por reparações representam um passo concreto para corrigir injustiças históricas e solicita a restituição de bens culturais, objetos de arte, monumentos e documentos aos países de origem. Países do Brics, como China, Índia, Rússia e África do Sul, votaram em peso a favor, junto com outras nações americanas, asiáticas e africanas.

